10/08/2026
Ele tava tentando. Cuidando de carros numa rua do centro. O pai o espancava. Quando o pai saia beber, ele sabia que quando retornasse, apanharia.
Tentava proteger a mãe, mas era difícil.
O pai espancou a mãe tanto que depôs de 15 dias internada, faleceu.
Ele saiu sem rumo. Deixou os irmãos. Sem a mãe, o que ele faria?
Nunca mais ele voltou pra aquele lugar. Ficou em situação de rua, aprendendo cedo que a vida não tinha nada de bom.
O tempo passou, ele com as migalhas da vida, vivendo toda sorte de violência e adversidade, conheceu um espaço onde seria possível existir.
Com os atendimentos, as oficinas, participações, ele disse que estava recebendo aquele carinho pela primeira vez.
Sexta a noite ele estava de coletinho, cuidando de carros, ansioso para a oficina de ilustração que ele participaria no dia seguinte.
A PM chegou.
O policial arrancou o colete, jogou no chão, pisou, disse que aquilo não era trabalho. Catou suas moedas, jogou no chão , fez ele ajoelhar para catá-las.
Bateu, deu chutes e socos. Vários carros, agentes municipais e estaduais.
Ele chorou tanto. Tanto.
Que tanto ódio é esse que ele recebe desde que nasceu?
Por que sempre espancado por homens com um pouco de poder sobre a vida dele? Que herança maldita é essa que seu pai o deixou?
Ele estava na fila do café pretexto de hoje.
Ele e outras centenas de pessoas, boa parte na mesma situação. Abandonados e “abandonadores”.
O ar f**a denso, é uma raiva contida, são traumas e dores, uma atrás da outra, a maioria sem nunca ter recebido nada de bom durante toda a vida.
Uma tensão. Se um fura a fila, já era. Discussões, desesperos, transtornos, dor, muita dor. Que não só não são amenizadas, como são intensif**adas.
O Estado tem sido esse pai, que espanca diariamente aqueles que precisam de cuidado. E depois encarcera, deseja a morte, incentiva que outras pessoas sejam também esse mesmo pai.
É uma máquina de moer gente.
Quem planta vento colhe tempestade. Quem cuida das políticas públicas para a situação de rua em Curitiba tem plantado vento, muito vento. E te dizer, a bala vai acabar ricocheteando na gente.