05/12/2025
Rute: Era Uma Vez... Primeira Parte
O livro de Ruter não foi escrito para que nos maravilhássemos com Ela, mas para que nos maravilhássemos com Deus. Ele não nos chama para admirar a astúcia de Noemi Rute ou Boas mas para admirar a sabedoria, o cuidado e a soberania de Deus.
Minha oração é que, ao estudarmos este livro seu coração não se conce apenas nos personagens, mas que você seja levado a amar a Deus cada vez mais. Deus é o Autor desta história. Deus é o Herói do drama. Deus é o Rei soberano, conduzindo tudo por trás das cenas visíveis.
Que possamos aprender a confiar no Deus que vê, que governa e que nunca falha, mesmo quando Ele parece silencioso.
Essa história é real. Não há evidência alguma de maçã envenenada, bruxa malvada ou sapatinho de cristal. Tudo isso é fantasia. Mas esta história é autêntica. Você encontrará evidência abundante da presença da mão de Deus agindo nos bastidores, organizando cada detalhe para que a donzela em perigo seja resgatada no momento certo, da maneira correta e pelo homem certo.
Este pequeno e poderoso livro, que conta esse conto de fadas da vida real, tem apenas quatro capítulos e pode ser lido facilmente em menos de trinta minutos. Alguns acreditam que ele foi escrito por um autor anônimo; outros encontram motivos plausíveis para crer que o autor foi o profeta Samuel. Não podemos saber com certeza, mas a antiga tradição judaica o considera o autor dessa história de amor.
A narrativa apresenta seis cenas de ação neste drama de amor verdadeiro. Na verdade, as primeiras palavras do verso 1, "Nos dias em que...", soam bem semelhantes a "Era uma vez, há muito, muito tempo atrás...", não é mesmo?
Antes de folhearmos essas páginas, permita-me apresentar algumas razões pelas quais Deus preservou em nossa Bíblia essa história de amor que dura apenas vinte minutos. Cada uma dessas razões aumentará nossa apreciação pelas verdades embutidas no pequeno livro de Rute.
O Livro de Rute: Por Que Deus o Preservou?
1. A primeira razão pela qual Deus nos oferece o livro de Rute em Sua Palavra é para demonstrar o evangelho da graça.
É fácil ignorar a riqueza profunda dessa verdade ao lermos o livro de Rute.
Na cultura hebraica, o Livro de Rute era um dos rolos lidos anualmente em uma festa. Entre eles estavam Ester, lido na Festa do Purim, Eclesiastes, lido na Festa dos Tabernáculos, e Rute, lido na Festa das Semanas, também conhecida como Festa do Pentecostes.
É muito mais que uma simples coincidência o fato de a história de um parente-resgatador que conquistou sua noiva ser lida na Festa de Pentecostes e, séculos depois, no Dia de Pentecostes, o Resgatador Jesus Cristo dar início à redenção de Sua noiva. Naquele dia, a Igreja foi criada. Tudo foi fruto da graça, tanto para Rute quanto para a Igreja.
Nesta história, encontramos uma moça gentia, descendente de Moabe, que era condenada pela Lei e proibida de adorar no templo de Deus, de acordo com a própria Lei, que dizia:
“Nenhum amonita nem moabita entrará na assembleia do Senhor...” (Deuteronômio 23:3)
"Nenhum amonita nem moabita entrará na assembleia do Senhor..." (Deuteronômio 23.3).
Contudo, essa moça moabita, Rute, entrega-se a Boaz, pedindo que ele a resgate. Essa atitude tem um paralelo fascinante com a nossa salvação: Boaz a resgatou, não porque ela alcançou as exigências da Lei, mas por causa de sua graça. Ela foi "salva" pela graça.
A Lei dizia: “Você não pode;” a graça diz: “Você pode.”
A Lei dizia: “Afaste-se;” a graça diz: “Aproxime-se.”
Isso nos conduz à segunda razão pela qual o livro de Rute foi preservado.
2. A Ilustração do Amor de Cristo pela Sua Igreja
O livro de Rute, preservado por Deus, fornece o único exemplo bíblico detalhado de um goel—um parente-resgatador.
A Lei de Moisés permitia que um parente próximo ainda vivo se casasse com a viúva de um familiar, a fim de providenciar tudo o que ela necessitasse, inclusive uma herança de suas propriedades. Não era como se qualquer homem pudesse se casar com a mulher; tinha que ser um parente chegado, um familiar. O parente mais próximo tinha o primeiro direito de recusar a tarefa, como descobriremos mais à frente em nosso estudo.
Boaz era parente do marido de Noemi e, portanto, poderia legalmente resgatar Rute, se assim desejasse. Como resultado, ele se torna uma poderosa ilustração de Jesus Cristo e seu amor para com a Igreja.
Nisto tudo, descobrimos uma das razões para a encarnação do Filho de Deus: Ele se tornou um ser humano—um parente da raça humana—podendo, agora, resgatar a noiva. Era isso que Paulo tinha em mente ao escrever em Gálatas 4.4–5:
“mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei, para resgatar os que estavam debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”
Além disso, Boaz não era responsável pela situação deplorável de Rute. Da mesma maneira, Jesus Cristo não era responsável pela desgraça do pecado que assola a raça humana. Mesmo assim:
“carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (1 Pedro 2.24).
Considere também o fato de que Boaz poderia ter escolhido uma noiva mais apresentável, intocada pelo pecado, não condenada pela Lei de Moisés. Da mesma sorte, Cristo escolheu nos redimir quando ainda éramos pecadores (Romanos 5).
Por fim, assim como Boaz teria que ser rico o suficiente para comprar a propriedade de Elimeleque, o nosso Senhor nos deu...
“...redenção pelo seu sangue, a redenção dos nossos delitos, segundo as riquezas da sua graça” (Efésios 1.7).
A proposta legal de Boaz foi dinheiro; a proposta legal de Cristo foi seu sangue. Contudo, grave em sua mente que essa transação não foi fria e sem sentimento.
Se você já leu essa história de amor antes, então sabe muito bem como a tensão aumenta até nos vermos dizendo ao outro provável resgatador: “Não compre a terra! Não diga ‘Sim!’ Boaz ama Rute!” E podemos até ver Boaz dando um pulo de alegria quando aquele outro homem lhe diz: “É o seguinte, você pode ficar com a terra e também resgatar Rute.
"À medida que esta história se inicia e as cortinas se abrem, prepare-se, amigo. Acontece que Deus é o Autor da sua história e da minha, para a Sua glória e de acordo com os Seus propósitos.
A melhor coisa a fazer é seguir a direção de Deus, submetendo-nos a cada movimento de Sua pena enquanto Ele escreve um conto. No final, esse conto se encaixará perfeitamente nos Seus propósitos e para a Sua glória, trazendo-nos verdadeira satisfação.
Nossas vidas simplesmente se tornam o pergaminho sobre o qual o Senhor Soberano escreve Seus planos, propósitos, Seu enredo, Seu drama para nós. Não há fracasso no final; não há medo fatal. Nós somos a Sua história!
Que sejamos, então, como uma folha em branco, dizendo: 'Este pedaço de papel em branco representa a minha vida que agora dedico a Cristo. Ele simboliza que agora estou aberto para o que Cristo desejar escrever em minha vida... Estou disposto a qualquer coisa.'
E, como aquele que disse: 'A única coisa que fiz foi assinar meu nome no final da página. Todo o resto ainda é desconhecido para mim, mas já assinei... minha vida pertence a Cristo!' Que sejamos assim!
Então, nosso Pai começa: 'Era uma vez...'
Sabemos que o final dirá: 'E viveram felizes para sempre.' E, a propósito, a nossa história jamais dirá 'O Fim', porque o nosso 'felizes para sempre' nunca, jamais terá fim.
Esse é o contexto por trás do drama de Rute e Boaz. As cortinas serão erguidas no nosso próximo estudo."
O livro de Rute é uma poderosa demonstração da graça de Deus:
Uma ilustração do amor de Cristo.
Uma prova da linhagem real de Cristo.
Uma prova de que a piedade é possível, mesmo em tempos de perversidade.
A Providência de Deus em Ação
A quinta razão pela qual Deus nos deu o livro de Rute foi para revelar Sua providência até nos menores detalhes da vida.
Deixe-me fazer um rápido panorama das muitas “coincidências” encontradas neste livro, que, na verdade, são atos orquestrados de Deus:
O patriarca Elimeleque, em sua infidelidade, deixou a terra e o povo de Deus, acabando por morar em Moabe.
Em sua rebelião, um dos filhos de Elimeleque casou-se com uma moabita chamada Rute.
Dez anos depois, Rute decidiu seguir a Deus e retornar à Sua terra e ao Seu povo com Noemi.
Rute, por acaso, foi respigar em um campo que pertencia a Boaz, parente de Noemi.
E Boaz, por acaso, decidiu ir ao seu campo justamente no dia em que Rute o escolheu para catar grãos.
Boaz era um homem solteiro e piedoso, filho de Raabe, uma mulher gentia convertida ao Judaísmo anos antes. Tendo crescido com uma mãe gentia, ele tinha a mente aberta para a possibilidade de se casar com uma convertida como Rute.
Boaz e Rute se casam e se tornam parte da linhagem de Cristo. Essa união carregaria não apenas sangue judeu (dando-Lhe direito ao trono de Davi), mas também sangue gentio, ilustrando que a noiva que Ele veio resgatar incluiria tanto judeus quanto gentios convertidos.
Não é maravilhosa a forma como as coisas simplesmente “aconteceram”? Mas não exatamente.
O Maestro da Sinfonia
Este é um livro que revela que Deus é o Maestro na sinfonia da vida. Ele organiza todas as coisas para cumprir Seus propósitos. Alguns desses eventos fazem sentido para nós hoje; outros, só farão sentido daqui a algumas gerações.
Logo no início desse conto dramático, eles estavam cheios de dúvidas:
Boaz: “Por que Deus não me concede uma esposa?”
Noemi: “Deus, por que levaste meu marido?”
Rute: “Que tipo de Deus eu decidi seguir? Como será que é o povo desse Deus?”
Elimeleque: “Minha falta de fidelidade estragou tudo—tudo está perdido.”
Mas eles não faziam ideia. E a verdade é que, nem nós fazemos ideia de nada.
A Pérola no Chiqueiro: A História de Rute e Boaz em Meio aos Dias dos Juízes
O livro de Juízes se encerra com uma declaração sombria: "Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos" (Juízes 21:25).
Essa frase nos informa imediatamente que a bela história de amor e redenção de Rute e Boaz brilhará num contexto perturbado, pecaminoso e imoral, no qual, ironicamente, “tudo é lícito”. Um autor chegou a definir o livro de Rute como uma pérola em meio ao chiqueiro do livro dos Juízes. Esses eram os dias de trevas, quando a justiça era definida pelos olhos de cada indivíduo.
A Verdade Sobre a Época dos Juízes
Ao ler o livro de Rute, podemos ser tentados a concluir que essa era uma época excelente para ser uma pessoa temente a Deus; que todos os homens eram bondosos para com as mulheres e estas eram discretas e respeitavam os homens. Podemos até mesmo ficar com a impressão de que todos os proprietários se preocupavam com seus empregados e o dinheiro era utilizado para auxiliar os pobres.
Mas nada poderia estar mais distante da verdade!
É justamente o contraste com a realidade da época que torna a história de amor entre Rute e Boaz ainda mais notável e inspiradora.
A Decadência de Israel
Afinal, como eram os Dias dos Juízes?
Eles representaram o ponto mais baixo na história de Israel, repletos de divisão, crueldade, apostasia, guerra civil e desgraça nacional.
Gideão, o Juiz Ambíguo: Baseado em alguns indicadores, acreditamos que Boaz foi contemporâneo de Gideão e que eles provavelmente se conheciam. Todavia, a biografia de Gideão vai de boa a ruim. Ele acabou se casando com várias mulheres, e essas mulheres deram à luz setenta filhos, os quais foram covardemente assassinados a sangue frio logo após a morte de Gideão (Juízes 8 e 9).
Sansão, o Juiz Cego: Existe ainda o juiz Sansão, cuja vida foi marcada por uma fornicação após a outra, até que ele praticamente vendeu sua alma à sua última amante, Dalila. Ela descobriu que o segredo da força de Sansão estava no seu cabelo; em uma noite, ela o cortou, e os filisteus o capturaram e lhe arrancaram os olhos (Juízes 19). E assim se findou mais um juiz.
A Abominação de Gibeá: Acrescenta-se a isso a terrível história de um levita que tomou uma concubina de Belém. Ele viajou a Efraim, onde sua amante acabou sendo estuprada por uma gangue e morta por israelitas (Juízes 19). Essa história se espalhou por todo o mundo judaico e foi a "notícia de primeira página na Gazeta de Belém". Esses foram, de fato, os dias dos juízes.
O Testemunho Brilhante de Rute e Boaz
Jamais havia existido uma época tão complicada para se encontrar uma esposa, instituir uma família e viver para Deus como nos dias dos juízes. Contudo, nas vidas de Boaz e Rute, vemos um foco de luz que manifesta:
O Santuário de um lar piedoso;
O Compromisso com o serviço humilde aos necessitados;
A Descrição de uma figura masculina que pastoreia sua família com honra;
A Apresentação de uma figura feminina que busca uma vida virtuosa;
A Santidade do voto matrimonial;
Um Padrão Elevado de casamento e fidelidade, até mesmo na época dos juízes, quando concubinas e amantes eram tão comuns quanto esposas.
Esses foram os dias de trevas dos juízes — e este é o testemunho brilhante de Boaz e Rute, provando que:
É possível viver uma vida piedosa em meio a uma cultura perversa.
É possível ser puro mesmo quando cercado por impureza.
É possível impedir que a cultura forme nosso caráter, e, em vez disso, fazer com que nosso caráter influencie nossa cultura.
A Redenção como História de Amor: A Paixão Revelada em Rute
Que emocionante! O que acabamos de presenciar é a pura alegria de um homem que ouviu um "Sim!" ao seu pedido de casamento. Boaz mal consegue conter sua satisfação. Homens, amém, esse momento é, muitas vezes, o ápice da alegria em nossas vidas. Assim como a união entre um homem e uma mulher, a redenção de um pecador é motivo de celebração e júbilo entre as hostes celestiais ($Lucas\ 15.10$).
Em que ponto a eleição, o despertar do pecador redimido e o chamado para se juntar aos convidados se tornaram uma transação com o Salvador tão desprovida de emoção?
A Paixão Perdida na Herança Teológica
É bem provável que essa frieza tenha se originado em nossa herança de escritos que, embora estivessem corretos no conceito de traçar a história da redenção através do Antigo Testamento, perderam a paixão ligada a ela.
Esses escritos transformaram a redenção em uma transação fria, desprovida de sentimento. Mas a redenção está longe de ser isso!
Redenção é a história de amor de um Parente que não contou o custo, nem calculou lucros e perdas; Ele apenas alegremente pagou um preço exorbitante por aqueles que amou.
Conforme declarado: “O livro de Rute demonstra que redenção não é uma transação comercial, mas uma história de amor.” O livro de Rute não apenas demonstra a obra da graça e o amor de Deus, mas vai além.
👑 Três Propósitos Divinos para o Livro de Rute
O livro de Rute foi preservado na Palavra de Deus por, pelo menos, três razões cruciais:
1. Ilustrar a Graça e o Amor de Cristo
A história de Boaz e Rute é uma poderosa ilustração do amor de Cristo por Sua noiva, a Igreja.
2. Defender a Genealogia de Jesus Cristo
O livro de Rute fornece uma linhagem clara e vital entre Davi e Judá—a linhagem do futuro Rei. Na verdade, a última tábua genealógica no Antigo Testamento que revela o elo entre Davi e Cristo é encontrada no livro de Rute, e é citada por Mateus e Lucas em seus Evangelhos.
O elo genealógico no livro de Rute é tão importante que pode ser considerado o motivo principal para o registro deste livro. É Rute quem fornece informações suficientes para Mateus e Lucas provarem que Jesus Cristo é descendente da linhagem real de Davi.
Comentário Adicional: O registro genealógico também revela um fato notável: a mãe gentia de Boaz, a meretriz Raabe, não se casou com um judeu qualquer, mas sim com um homem da linhagem sacerdotal de Arão. Assim, Jesus Cristo, que se casa com Sua noiva, a Igreja, é um membro da linhagem sacerdotal. Ele é o nosso Superior e Último Sumo Sacerdote.
3. Provar que a Vida Piedosa é Possível em Cultura Perversa
O quarto e último motivo pelo qual o livro de Rute foi preservado é que ele serve de prova de que a vida piedosa pode ser vivida em meio a uma cultura perversa.
Este "conto de fadas que se torna realidade" é uma continuação do Livro de Juízes, como indica $Rute\ 1.1$: Nos dias em que os juízes governavam...
E como eram esses dias? Para saber como deve ter sido viver na época dos juízes, basta lermos o último verso daquele livro:
Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos ($Juízes\ 21.25$).