O Livro de Rute

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05/12/2025

Rute: Era Uma Vez... Primeira Parte
O livro de Ruter não foi escrito para que nos maravilhássemos com Ela, mas para que nos maravilhássemos com Deus. Ele não nos chama para admirar a astúcia de Noemi Rute ou Boas mas para admirar a sabedoria, o cuidado e a soberania de Deus.

Minha oração é que, ao estudarmos este livro seu coração não se conce apenas nos personagens, mas que você seja levado a amar a Deus cada vez mais. Deus é o Autor desta história. Deus é o Herói do drama. Deus é o Rei soberano, conduzindo tudo por trás das cenas visíveis.

Que possamos aprender a confiar no Deus que vê, que governa e que nunca falha, mesmo quando Ele parece silencioso.

Essa história é real. Não há evidência alguma de maçã envenenada, bruxa malvada ou sapatinho de cristal. Tudo isso é fantasia. Mas esta história é autêntica. Você encontrará evidência abundante da presença da mão de Deus agindo nos bastidores, organizando cada detalhe para que a donzela em perigo seja resgatada no momento certo, da maneira correta e pelo homem certo.

Este pequeno e poderoso livro, que conta esse conto de fadas da vida real, tem apenas quatro capítulos e pode ser lido facilmente em menos de trinta minutos. Alguns acreditam que ele foi escrito por um autor anônimo; outros encontram motivos plausíveis para crer que o autor foi o profeta Samuel. Não podemos saber com certeza, mas a antiga tradição judaica o considera o autor dessa história de amor.

A narrativa apresenta seis cenas de ação neste drama de amor verdadeiro. Na verdade, as primeiras palavras do verso 1, "Nos dias em que...", soam bem semelhantes a "Era uma vez, há muito, muito tempo atrás...", não é mesmo?

Antes de folhearmos essas páginas, permita-me apresentar algumas razões pelas quais Deus preservou em nossa Bíblia essa história de amor que dura apenas vinte minutos. Cada uma dessas razões aumentará nossa apreciação pelas verdades embutidas no pequeno livro de Rute.



O Livro de Rute: Por Que Deus o Preservou?

1. A primeira razão pela qual Deus nos oferece o livro de Rute em Sua Palavra é para demonstrar o evangelho da graça.

É fácil ignorar a riqueza profunda dessa verdade ao lermos o livro de Rute.

Na cultura hebraica, o Livro de Rute era um dos rolos lidos anualmente em uma festa. Entre eles estavam Ester, lido na Festa do Purim, Eclesiastes, lido na Festa dos Tabernáculos, e Rute, lido na Festa das Semanas, também conhecida como Festa do Pentecostes.

É muito mais que uma simples coincidência o fato de a história de um parente-resgatador que conquistou sua noiva ser lida na Festa de Pentecostes e, séculos depois, no Dia de Pentecostes, o Resgatador Jesus Cristo dar início à redenção de Sua noiva. Naquele dia, a Igreja foi criada. Tudo foi fruto da graça, tanto para Rute quanto para a Igreja.

Nesta história, encontramos uma moça gentia, descendente de Moabe, que era condenada pela Lei e proibida de adorar no templo de Deus, de acordo com a própria Lei, que dizia:

“Nenhum amonita nem moabita entrará na assembleia do Senhor...” (Deuteronômio 23:3)



"Nenhum amonita nem moabita entrará na assembleia do Senhor..." (Deuteronômio 23.3).

Contudo, essa moça moabita, Rute, entrega-se a Boaz, pedindo que ele a resgate. Essa atitude tem um paralelo fascinante com a nossa salvação: Boaz a resgatou, não porque ela alcançou as exigências da Lei, mas por causa de sua graça. Ela foi "salva" pela graça.

A Lei dizia: “Você não pode;” a graça diz: “Você pode.”

A Lei dizia: “Afaste-se;” a graça diz: “Aproxime-se.”

Isso nos conduz à segunda razão pela qual o livro de Rute foi preservado.



2. A Ilustração do Amor de Cristo pela Sua Igreja

O livro de Rute, preservado por Deus, fornece o único exemplo bíblico detalhado de um goel—um parente-resgatador.

A Lei de Moisés permitia que um parente próximo ainda vivo se casasse com a viúva de um familiar, a fim de providenciar tudo o que ela necessitasse, inclusive uma herança de suas propriedades. Não era como se qualquer homem pudesse se casar com a mulher; tinha que ser um parente chegado, um familiar. O parente mais próximo tinha o primeiro direito de recusar a tarefa, como descobriremos mais à frente em nosso estudo.

Boaz era parente do marido de Noemi e, portanto, poderia legalmente resgatar Rute, se assim desejasse. Como resultado, ele se torna uma poderosa ilustração de Jesus Cristo e seu amor para com a Igreja.

Nisto tudo, descobrimos uma das razões para a encarnação do Filho de Deus: Ele se tornou um ser humano—um parente da raça humana—podendo, agora, resgatar a noiva. Era isso que Paulo tinha em mente ao escrever em Gálatas 4.4–5:

“mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei, para resgatar os que estavam debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.”

Além disso, Boaz não era responsável pela situação deplorável de Rute. Da mesma maneira, Jesus Cristo não era responsável pela desgraça do pecado que assola a raça humana. Mesmo assim:

“carregando ele mesmo em seu corpo, sobre o madeiro, os nossos pecados, para que nós, mortos para os pecados, vivamos para a justiça; por suas chagas, fostes sarados” (1 Pedro 2.24).

Considere também o fato de que Boaz poderia ter escolhido uma noiva mais apresentável, intocada pelo pecado, não condenada pela Lei de Moisés. Da mesma sorte, Cristo escolheu nos redimir quando ainda éramos pecadores (Romanos 5).

Por fim, assim como Boaz teria que ser rico o suficiente para comprar a propriedade de Elimeleque, o nosso Senhor nos deu...

“...redenção pelo seu sangue, a redenção dos nossos delitos, segundo as riquezas da sua graça” (Efésios 1.7).

A proposta legal de Boaz foi dinheiro; a proposta legal de Cristo foi seu sangue. Contudo, grave em sua mente que essa transação não foi fria e sem sentimento.

Se você já leu essa história de amor antes, então sabe muito bem como a tensão aumenta até nos vermos dizendo ao outro provável resgatador: “Não compre a terra! Não diga ‘Sim!’ Boaz ama Rute!” E podemos até ver Boaz dando um pulo de alegria quando aquele outro homem lhe diz: “É o seguinte, você pode ficar com a terra e também resgatar Rute.







"À medida que esta história se inicia e as cortinas se abrem, prepare-se, amigo. Acontece que Deus é o Autor da sua história e da minha, para a Sua glória e de acordo com os Seus propósitos.

A melhor coisa a fazer é seguir a direção de Deus, submetendo-nos a cada movimento de Sua pena enquanto Ele escreve um conto. No final, esse conto se encaixará perfeitamente nos Seus propósitos e para a Sua glória, trazendo-nos verdadeira satisfação.

Nossas vidas simplesmente se tornam o pergaminho sobre o qual o Senhor Soberano escreve Seus planos, propósitos, Seu enredo, Seu drama para nós. Não há fracasso no final; não há medo fatal. Nós somos a Sua história!

Que sejamos, então, como uma folha em branco, dizendo: 'Este pedaço de papel em branco representa a minha vida que agora dedico a Cristo. Ele simboliza que agora estou aberto para o que Cristo desejar escrever em minha vida... Estou disposto a qualquer coisa.'

E, como aquele que disse: 'A única coisa que fiz foi assinar meu nome no final da página. Todo o resto ainda é desconhecido para mim, mas já assinei... minha vida pertence a Cristo!' Que sejamos assim!

Então, nosso Pai começa: 'Era uma vez...'

Sabemos que o final dirá: 'E viveram felizes para sempre.' E, a propósito, a nossa história jamais dirá 'O Fim', porque o nosso 'felizes para sempre' nunca, jamais terá fim.

Esse é o contexto por trás do drama de Rute e Boaz. As cortinas serão erguidas no nosso próximo estudo."



O livro de Rute é uma poderosa demonstração da graça de Deus:

Uma ilustração do amor de Cristo.

Uma prova da linhagem real de Cristo.

Uma prova de que a piedade é possível, mesmo em tempos de perversidade.



A Providência de Deus em Ação

A quinta razão pela qual Deus nos deu o livro de Rute foi para revelar Sua providência até nos menores detalhes da vida.

Deixe-me fazer um rápido panorama das muitas “coincidências” encontradas neste livro, que, na verdade, são atos orquestrados de Deus:

O patriarca Elimeleque, em sua infidelidade, deixou a terra e o povo de Deus, acabando por morar em Moabe.

Em sua rebelião, um dos filhos de Elimeleque casou-se com uma moabita chamada Rute.

Dez anos depois, Rute decidiu seguir a Deus e retornar à Sua terra e ao Seu povo com Noemi.

Rute, por acaso, foi respigar em um campo que pertencia a Boaz, parente de Noemi.

E Boaz, por acaso, decidiu ir ao seu campo justamente no dia em que Rute o escolheu para catar grãos.

Boaz era um homem solteiro e piedoso, filho de Raabe, uma mulher gentia convertida ao Judaísmo anos antes. Tendo crescido com uma mãe gentia, ele tinha a mente aberta para a possibilidade de se casar com uma convertida como Rute.

Boaz e Rute se casam e se tornam parte da linhagem de Cristo. Essa união carregaria não apenas sangue judeu (dando-Lhe direito ao trono de Davi), mas também sangue gentio, ilustrando que a noiva que Ele veio resgatar incluiria tanto judeus quanto gentios convertidos.

Não é maravilhosa a forma como as coisas simplesmente “aconteceram”? Mas não exatamente.



O Maestro da Sinfonia

Este é um livro que revela que Deus é o Maestro na sinfonia da vida. Ele organiza todas as coisas para cumprir Seus propósitos. Alguns desses eventos fazem sentido para nós hoje; outros, só farão sentido daqui a algumas gerações.

Logo no início desse conto dramático, eles estavam cheios de dúvidas:

Boaz: “Por que Deus não me concede uma esposa?”

Noemi: “Deus, por que levaste meu marido?”

Rute: “Que tipo de Deus eu decidi seguir? Como será que é o povo desse Deus?”

Elimeleque: “Minha falta de fidelidade estragou tudo—tudo está perdido.”

Mas eles não faziam ideia. E a verdade é que, nem nós fazemos ideia de nada.



A Pérola no Chiqueiro: A História de Rute e Boaz em Meio aos Dias dos Juízes

O livro de Juízes se encerra com uma declaração sombria: "Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos" (Juízes 21:25).

Essa frase nos informa imediatamente que a bela história de amor e redenção de Rute e Boaz brilhará num contexto perturbado, pecaminoso e imoral, no qual, ironicamente, “tudo é lícito”. Um autor chegou a definir o livro de Rute como uma pérola em meio ao chiqueiro do livro dos Juízes. Esses eram os dias de trevas, quando a justiça era definida pelos olhos de cada indivíduo.

A Verdade Sobre a Época dos Juízes

Ao ler o livro de Rute, podemos ser tentados a concluir que essa era uma época excelente para ser uma pessoa temente a Deus; que todos os homens eram bondosos para com as mulheres e estas eram discretas e respeitavam os homens. Podemos até mesmo ficar com a impressão de que todos os proprietários se preocupavam com seus empregados e o dinheiro era utilizado para auxiliar os pobres.

Mas nada poderia estar mais distante da verdade!

É justamente o contraste com a realidade da época que torna a história de amor entre Rute e Boaz ainda mais notável e inspiradora.

A Decadência de Israel

Afinal, como eram os Dias dos Juízes?

Eles representaram o ponto mais baixo na história de Israel, repletos de divisão, crueldade, apostasia, guerra civil e desgraça nacional.

Gideão, o Juiz Ambíguo: Baseado em alguns indicadores, acreditamos que Boaz foi contemporâneo de Gideão e que eles provavelmente se conheciam. Todavia, a biografia de Gideão vai de boa a ruim. Ele acabou se casando com várias mulheres, e essas mulheres deram à luz setenta filhos, os quais foram covardemente assassinados a sangue frio logo após a morte de Gideão (Juízes 8 e 9).

Sansão, o Juiz Cego: Existe ainda o juiz Sansão, cuja vida foi marcada por uma fornicação após a outra, até que ele praticamente vendeu sua alma à sua última amante, Dalila. Ela descobriu que o segredo da força de Sansão estava no seu cabelo; em uma noite, ela o cortou, e os filisteus o capturaram e lhe arrancaram os olhos (Juízes 19). E assim se findou mais um juiz.

A Abominação de Gibeá: Acrescenta-se a isso a terrível história de um levita que tomou uma concubina de Belém. Ele viajou a Efraim, onde sua amante acabou sendo estuprada por uma gangue e morta por israelitas (Juízes 19). Essa história se espalhou por todo o mundo judaico e foi a "notícia de primeira página na Gazeta de Belém". Esses foram, de fato, os dias dos juízes.

O Testemunho Brilhante de Rute e Boaz

Jamais havia existido uma época tão complicada para se encontrar uma esposa, instituir uma família e viver para Deus como nos dias dos juízes. Contudo, nas vidas de Boaz e Rute, vemos um foco de luz que manifesta:

O Santuário de um lar piedoso;

O Compromisso com o serviço humilde aos necessitados;

A Descrição de uma figura masculina que pastoreia sua família com honra;

A Apresentação de uma figura feminina que busca uma vida virtuosa;

A Santidade do voto matrimonial;

Um Padrão Elevado de casamento e fidelidade, até mesmo na época dos juízes, quando concubinas e amantes eram tão comuns quanto esposas.

Esses foram os dias de trevas dos juízes — e este é o testemunho brilhante de Boaz e Rute, provando que:

É possível viver uma vida piedosa em meio a uma cultura perversa.

É possível ser puro mesmo quando cercado por impureza.

É possível impedir que a cultura forme nosso caráter, e, em vez disso, fazer com que nosso caráter influencie nossa cultura.



A Redenção como História de Amor: A Paixão Revelada em Rute

Que emocionante! O que acabamos de presenciar é a pura alegria de um homem que ouviu um "Sim!" ao seu pedido de casamento. Boaz mal consegue conter sua satisfação. Homens, amém, esse momento é, muitas vezes, o ápice da alegria em nossas vidas. Assim como a união entre um homem e uma mulher, a redenção de um pecador é motivo de celebração e júbilo entre as hostes celestiais ($Lucas\ 15.10$).

Em que ponto a eleição, o despertar do pecador redimido e o chamado para se juntar aos convidados se tornaram uma transação com o Salvador tão desprovida de emoção?

A Paixão Perdida na Herança Teológica

É bem provável que essa frieza tenha se originado em nossa herança de escritos que, embora estivessem corretos no conceito de traçar a história da redenção através do Antigo Testamento, perderam a paixão ligada a ela.

Esses escritos transformaram a redenção em uma transação fria, desprovida de sentimento. Mas a redenção está longe de ser isso!

Redenção é a história de amor de um Parente que não contou o custo, nem calculou lucros e perdas; Ele apenas alegremente pagou um preço exorbitante por aqueles que amou.

Conforme declarado: “O livro de Rute demonstra que redenção não é uma transação comercial, mas uma história de amor.” O livro de Rute não apenas demonstra a obra da graça e o amor de Deus, mas vai além.



👑 Três Propósitos Divinos para o Livro de Rute

O livro de Rute foi preservado na Palavra de Deus por, pelo menos, três razões cruciais:

1. Ilustrar a Graça e o Amor de Cristo

A história de Boaz e Rute é uma poderosa ilustração do amor de Cristo por Sua noiva, a Igreja.

2. Defender a Genealogia de Jesus Cristo

O livro de Rute fornece uma linhagem clara e vital entre Davi e Judá—a linhagem do futuro Rei. Na verdade, a última tábua genealógica no Antigo Testamento que revela o elo entre Davi e Cristo é encontrada no livro de Rute, e é citada por Mateus e Lucas em seus Evangelhos.

O elo genealógico no livro de Rute é tão importante que pode ser considerado o motivo principal para o registro deste livro. É Rute quem fornece informações suficientes para Mateus e Lucas provarem que Jesus Cristo é descendente da linhagem real de Davi.

Comentário Adicional: O registro genealógico também revela um fato notável: a mãe gentia de Boaz, a meretriz Raabe, não se casou com um judeu qualquer, mas sim com um homem da linhagem sacerdotal de Arão. Assim, Jesus Cristo, que se casa com Sua noiva, a Igreja, é um membro da linhagem sacerdotal. Ele é o nosso Superior e Último Sumo Sacerdote.

3. Provar que a Vida Piedosa é Possível em Cultura Perversa

O quarto e último motivo pelo qual o livro de Rute foi preservado é que ele serve de prova de que a vida piedosa pode ser vivida em meio a uma cultura perversa.

Este "conto de fadas que se torna realidade" é uma continuação do Livro de Juízes, como indica $Rute\ 1.1$: Nos dias em que os juízes governavam...

E como eram esses dias? Para saber como deve ter sido viver na época dos juízes, basta lermos o último verso daquele livro:

Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que parecia bem aos seus olhos ($Juízes\ 21.25$).

05/12/2025

Rute 1.6–22 – Três Viúvas, Três Caminhos
Segunda parte

Sempre que saio de carro, vejo na Avenida da Integração uma meia dúzia de cavalos pastando. Embora o capim do loteamento seja verde e fértil, é comum observá-los se aventurando pelas beiras das ruas em busca de outro pasto — que, por sinal, nem é tão verde quanto o original.

Essa cena me traz à mente o mito do capim mais verde: a crença de que a satisfação, a facilidade ou a felicidade estão sempre em outro lugar. E, claro, isso é uma falácia no meio do seu próprio pasto. O capim sempre parece mais verde:

Em uma casa diferente;

Com um salário mais alto;

Em um emprego, escola ou bairro diferente;

Dirigindo outro carro;

Ao lado de um cônjuge diferente;

Pertencendo a outra família.

Simplesmente, o capim é verde em todos os outros lugares, menos aqui!

Não podemos ignorar que algumas situações são, de fato, mais difíceis e, às vezes, precisamos fazer mudanças. O problema surge quando presumimos que Deus jamais dificultaria ou tornaria nossa vida desconfortável e cheia de desafios; afinal, 'Deus deseja ver todo mundo feliz'. Nessa lógica, um capim mais verde seria a prova da direção de Deus.

Contudo, o capim mais verde pode ser o abismo mais perigoso para o qual corremos. Estamos prestes a testemunhar este mito se desenrolando em cores vibrantes na vida de pessoas reais.

Se você já leu um conto de fadas, sabe que, mesmo antes de o herói aparecer, a história apresenta um cenário sombrio. Nuvens carregadas se formam no céu.

No conto de Rute e Boaz, que é, na verdade, uma história real, o mesmo enredo se desenrola. O contexto dessa história de amor mal ultrapassa os primeiros versos e as nuvens nebulosas já começam a se formar.

Vamos ler Rute 1.1:

'Nos dias em que os juízes governavam, houve uma fome na terra; pelo que um homem de Belém de Judá saiu a peregrinar no país de Moabe, ele, sua mulher, e seus dois filhos.'"



A Crise em Belém

Sem dúvida, este homem, com sua esposa e dois filhos, enfrentava uma crise profunda. É em períodos assim que o anseio por "capim mais verde" começa a permear mentes e corações. No caso dele, a crise era multifacetada: uma fome que devastava toda a cidade de Belém, Judá.

Além da fome, havia o tumulto político dos dias dos juízes. Como vimos, a vida civil, moral e a verdadeira piedade religiosa estavam em colapso. Some-se a isso o medo constante de ataques midianitas, que ameaçavam o gado ou até mesmo a vida do homem.

O potencial de investimento em Belém estava no seu ponto mais baixo. No auge dessa montanha de crises, a realidade era uma despensa vazia e um celeiro sem provisão.

A Ironia da "Casa do Pão"

O versículo 1 contém uma poderosa ironia ou trocadilho no hebraico, imediatamente notado pelos leitores judeus: "houve uma fome na terra; pelo que um homem de Belém..."

Belém significa literalmente “Casa do Pão.” Em outras palavras, a cesta de pão de Judá estava vazia. Pessoas que viviam na Casa do Pão estavam morrendo de fome.

Os leitores originais perceberiam rapidamente a contradição: “Existe uma fome na Casa do Pão.” Isso é como relatar o crescimento de bandidagem e guerras de gangues na Filadélfia, a “Cidade do Amor Fraternal,” ou o aumento da atividade demoníaca em Los Angeles, a “Cidade dos Anjos.” A associação de fome com Belém — a padaria de Judá — cria uma reviravolta repentina na narrativa.

Belém, localizada a cerca de 9 quilômetros ao sul de Jerusalém, merecia sua reputação: trigo, cevada, azeitonas, avelãs e uvas eram abundantes nos tempos antigos. Todavia, agora a fome se instalara.

O Propósito de Deus na Crise

É provável que esta seja a mesma fome mencionada em Juízes 6, o que insere a história na época da liderança de Gideão e da opressão midianita. Mais importante, isso nos ajuda a entender que a fome era, em última análise, uma consequência da rebelião dos israelitas contra Deus.

Com frequência, Deus usava a fome para levar a nação de volta ao senso de necessidade e dependência d'Ele. O objetivo de Deus não era que o povo abandonasse a Casa do Pão, mas que se arrependesse e O obedecesse. Após o arrependimento, Ele voltaria a encher seus celeiros. Deus tinha uma maneira de usar a fome para remodelar a fé — fé nas Suas promessas e provisões. Este era um teste que moldava o caráter do Seu povo.

De Belém a Moabe

Ainda adicionando ao jogo de palavras, este homem e sua família decidem se mudar para Moabe. No Salmo 60:8, o Senhor chama Moabe de “bacia de lavar” — o pote usado para lavar pés sujos. Seria o mesmo que chamá-la de lata de lixo, o lugar onde se lançam coisas estragadas. A região de Moabe era, figurativamente, um lixão.

Assim, esta família judia, numa crise de fé, abandona a “Casa do Pão” e se muda para o lixão. Eles saíram da cesta do pão para a lata de lixo.





Introdução dos Personagens

Agora, antes de continuarmos, vamos dar uma olhada nos personagens desse drama que se desenrola.

Existem seis personagens importantes nessa história, mas, tragicamente, após os primeiros versos, apenas três permanecerão vivos.

Os Nomes e Seus Significados

O verso 2 nos apresenta o patriarca da família: Elimeleque. Traduzido informalmente, seu nome significa “Deus é o meu Rei.” A grande tragédia de Elimeleque foi que ele simplesmente não viveu o significado de seu nome.

A segunda personagem é Noemi, a esposa. Seu nome significa “graciosa.”

Então, temos os filhos de Elimeleque e Noemi, que sobem ao palco por apenas alguns segundos: Malom e Quiliom.

Seus nomes formam uma rima. Isso pode sugerir que eram gêmeos ou, talvez, que tinham uma mãe, como muitas, que gostava que os nomes dos filhos começassem com a mesma letra ou rimassem. Eu imagino que Noemi talvez tivesse um livro com o título: “200 Nomes que Rimam: Edição para Meninos.”

Digo isso porque, apesar da rima, os significados dos nomes de seus filhos não eram nada bons!

Malom significa “débil, fraco, insignificante.”

Quiliom significa “ruína, desgraça.”

Imagine: seus nomes significavam, basicamente, “Débil” e “Chorão.” Muito bem, mãe! Obrigado por ter me dado isso pelo resto da minha vida!

As Noras

Já que estamos falando de nomes curiosos, o verso 4 nos fornece os das futuras esposas.

Uma era Orfa, que significa “obstinada,” ou literalmente “pescoço forte, pescoço endurecido.” Que nome amável para uma moça! Posso dizer isso porque estou convencido de que não há nenhuma Orfa lendo isto neste exato momento.

Finalmente, a esposa do outro filho é Rute, cujo nome significa “conforto” ou talvez “amiga.”

Assim, temos o Débil se casando com a Forte e o Chorão se casando com a Conforto. Francamente, Rute parece ser a única a não se encaixar nessa cena de tragédia e mau presságio.

A Ironia do Drama

A verdade é que, no desenrolar da história, cada um basicamente viverá o significado de seu nome. Todos, exceto um — e justamente o único que mais deveria vivê-lo: Elimeleque (ou “Deus é o meu Rei”). Em outras palavras, ele falhou em afirmar que “Deus é o Senhor da minha vida. Deus é soberano nas minhas tomadas de decisão. Deus tem prioridade.”

Quero ainda apontar mais uma dica importante a respeito dessa família. Ela se encontra no meio do verso 2, onde lemos que eles eram efrateus, de Belém de Judá.

Efrata foi o nome da esposa de Calebe, o famoso e corajoso companheiro de Josué. De acordo com 1 Crônicas 2.19, os descendentes de Calebe foram os fundadores de Belém.



Os Efrateus eram membros de um clã proeminente – "a primeira família de Belém; a aristocracia da cidade". Mencionar isso serve para destacar a severa crise que atingia essa linhagem.

O que temos aqui são os descendentes dessa aristocracia de Belém vivendo como imigrantes, sem-teto e famintos.

Por que essa família deveria permanecer em Belém, onde a fome os assolava – e a todos os demais moradores também?

“Estamos acostumados a uma vida melhor do que esta. Por que permanecer na terra de nossa fé e de nossos antepassados? Vamos nos mudar para onde o capim é mais verde!”

É assim que a crise conduz esses personagens ao comprometimento de sua fé.



O Comprometimento

Do alto dos desfiladeiros que cercam Belém, é possível enxergar de longe a terra de Moabe. Moabe tinha abundância de água, pois os ventos que sopravam do Mar Mediterrâneo garantiam que as chuvas de inverno escoassem para o interior de sua terra.

Elimeleque provavelmente subiu nessas montanhas e, enquanto observava os campos secos e amarronzados de Belém, conseguiu ver facilmente, a menos de 80 quilômetros dali, logo do outro lado do Mar Morto, os campos verdes e férteis de Moabe. Talvez ele tenha pensado consigo mesmo: “Será só por um tempinho. Deus não se importará. Nossa ausência do meio do Seu povo e de Sua terra será apenas uma visita rápida a Moabe.”

Note a progressão sutil dos termos utilizados nos primeiros versos:

O verso 1 diz que eles saíram a peregrinar no país de Moabe.

O verso 2 diz que eles, tendo entrado no país de Moabe, ficaram ali.

Finalmente, o verso 4 nos informa, de forma surpreendente, que eles moraram ali quase dez anos.

Aprenda com Elimeleque: o perigo do "capim verde" é que ele rapidamente pode se transformar em areia movediça.



A Aparência de Sucesso

Todavia, isso não significa que o capim mais verde tinha, à primeira vista, aparência de areia movediça. A mudança dessa família evidentemente teve sucesso imediato. Eles tiveram provisão por dez anos. Encontraram um lugar para morar e esposas para seus filhos. A vida estava boa!

Ao mesmo tempo, haviam conscientemente abandonado a participação na assembleia do Senhor. Eles abandonaram a comunidade onde deveriam ter permanecido para ajudar. Elimeleque poderia ter liderado o caminho para o arrependimento e a adoração genuína. Ao invés disso, ele fugiu, julgando os pastos mais verdes de Moabe como algo mais valioso do que a adoração e a comunhão na assembleia, as quais, de acordo com Deuteronômio 23, foram deixadas para trás.

Não é de se surpreender que os primeiros cinco versos de Rute constituam a seção na qual o nome de Deus nem sequer é mencionado uma vez. Em uma narrativa como essa, a ausência do nome de Deus é sinônimo da ausência de desejo pela vontade de Deus.

Elimeleque poderia ter argumentado: “Não vou me tornar um moabita! Jamais ofereceria um de meus filhos a Quemos, o deus deles! Não sou a favor de sacrifícios de crianças ou de idolatria. Jamais faria isso. Não sou um moabita; eu vou apenas, sabe, temporariamente, abandonar a Palavra de Deus e a adoração a Deus e ir morar com os moabitas.”





Contudo, não demorou muito para que, em algum momento antes de sua morte, Elimeleque escolhesse esposas moabitas para seus filhos.

Talvez sem perceber, as alianças das promessas — a terra e a descendência prometidas, os profetas e o próprio Deus das alianças — haviam perdido sua relevância. De repente, nada disso era mais importante.

A busca incessante por “capim mais verde” produz um efeito de sonolência espiritual em nosso interior. O que começa como algo temporário e, aparentemente, insignificante, se acumula:

É apenas uma viagem rápida;

É somente uma ligação de rotina;

É só uma aposta pequena;

É apenas um gole a mais;

É só uma conta pessoal paga com os recursos da empresa;

É meramente uma pequena mentira;

É apenas uma comprinha desnecessária;

É só um rápido clique no mouse.
.. E assim, o capim verde cresce, transformando-se em uma floresta densa na qual a pessoa mal consegue enxergar a luz do dia.



A Queda e a Irreversibilidade

Talvez Elimeleque nunca tenha tido a intenção de retornar, caso as coisas prosperassem em Moabe. De qualquer forma, esse patriarca, líder de uma família proeminente em Belém que havia escandalizado a comunidade com sua migração, jamais voltaria.

O capim verde pode, tragicamente, conduzir ao cemitério.

Note como o autor sagrado relata abruptamente a morte dos homens dessa família. No verso 3, lemos:

“E morreu Elimeleque, marido de Noêmi; e ficou ela com os seus dois filhos.”

Apenas dois versos depois, no verso 5, o golpe final é dado:

“E morreram também os dois, Malom e Quiliom.”

Não há nenhuma explicação detalhada ou diagnóstico médico; apenas a notícia alarmante para todos os seus vizinhos em Moabe e, com certeza, o tema do dia em Belém.



As Consequências e o Julgamento

As mortes do marido e dos filhos de Noemi foram, de fato, julgamentos divinos pela sua falta de fé. Seria um paralelo à referência aos crentes do Novo Testamento em 1 Coríntios, onde alguns morreram prematuramente por terem participado da Ceia do Senhor enquanto cultivavam e praticavam pecados secretos ($1$ Coríntios $11:30$).

Os filhos de Elimeleque desobedeceram a Deus ao:

Não retornarem de Moabe.

Não conduzirem suas esposas ao Deus de Abraão.

Não se importarem em trazer o corpo de seu pai.

Adotarem completamente o estilo de vida e a cultura moabita.

Suas mortes prematuras foram, portanto, um juízo pela indiferença aos caminhos de Deus.

O verso 5 termina com Noemi praticamente solitária. Ela ficou desamparada, sem seus dois filhos e sem seu marido. Sozinha, foi deixada a se perguntar: “Para onde se foram aqueles dez anos de minha vida?”



Deixe-me fornecer quatro observações retiradas dessa cena que vimos de um homem que buscou o capim mais verde.

1. Uma decisão pecaminosa pode conduzir a uma cascata de escolhas erradas que nos afastam do caminho da sabedoria.

Você pode estar pensando: "Pastor, o que faço com minhas decisões pecaminosas? Já tomei várias e agora me encontro fora do caminho, distante da comunhão com Cristo. Será que vou morrer em Moabe?”

Não.

Jesus Cristo pode e irá perdoar cada pecado que você, crente, confessar, restaurando sua comunhão com o Pai. Para quem ainda não é redimido, Cristo perdoa o registro de pecado que está contra você. Jesus é especialista em resgatar pecadores! E eu sei disso, já que sou um desses pecadores resgatados.

No entanto, se você é crente e tomou decisões que desagradaram a Deus, saiba que o arrependimento genuíno é a disposição de encarar esses atos e decisões como agressões diretas à Palavra e à vontade de Deus.

Além disso, o arrependimento verdadeiro assume a responsabilidade pelas consequências desses pecados. Ele não as joga para outra pessoa, não as varre para debaixo do tapete, nem foge delas. Verdadeiro arrependimento assume o pecado e aceita as consequências. Na verdade, consequências que duram anos podem se tornar o meio pelo qual Deus nos relembra de Sua graça, perdão e da Sua força para fazermos a coisa certa e andarmos em obediência a Cristo.



2. Decidir buscar o “capim mais verde” em vez da glória de Deus é a origem de toda tristeza.

Cinco versículos podem acabar representando volumes de tristeza e dor. E tudo começou com um olhar, que gerou um desejo e, por fim, a partida. O capim mais verde era, na verdade, apenas um disfarce para uma grande tristeza.



3. O “capim verde” pode até fazer sentido, mas fazer sentido e confiar em Cristo são coisas completamente diferentes.

Buscar o capim mais verde pode fazer muito mais sentido economicamente, mas pode significar perda espiritual. Pode conduzir a progresso pessoal, mas, ao mesmo tempo, a um regresso espiritual trágico.

Sejamos francos: o motivo pelo qual o capim verde pode fazer tanto sentido é que nossos corações são egoístas e corrompidos, e nossas mentes constantemente carecem de uma transformação e renovação diárias (Romanos 12.1–2). O coração de cada problema se encontra em cada coração. Nós mesmos somos nossos maiores obstáculos à vida sábia. Por causa de nossos corações pecaminosos, a desobediência pode acabar parecendo a escolha mais lógica.



4. A "fome" dentro da vontade de Deus é melhor do que a "abundância" fora dela.

Pense em Noemi, que diria: “Se eu aprendi com essa! Nossa viagem rápida acabou virando uma estada de dez anos. Agora, tudo parece ter acabado com três viúvas e três túmulos.”

Mas esse não é o fim. Na verdade, tudo isso que aconteceu simplesmente prepara o palco para o começo. Deus tem um jeito especial de pegar pessoas perdidas em Moabe—o lixão—e colocá-las de pé no caminho de volta a Belém—a Casa do Pão.

Entretanto, isso exigirá submissão. Noemi e Rute experimentarão a graça de Deus porque elas a buscam. Elas voltam para a terra do Senhor para conseguir graça. Elas estão disponíveis para a graça. Deus tem um jeito de resgatar anos desperdiçados e decisões tolas na vida daqueles que o buscam, de forma que, como Noemi e Rute, podemos desfrutar do favor e da comunhão com nosso Parente Resgatador, o nosso Salvador Jesus Cristo

A dificuldade desenvolve profundidade.

A verdade é que dificuldades, dores, sofrimentos e tristezas constroem encruzilhadas e o caminho que escolhermos pegar fará toda a diferença se iremos crescer na fé e torná-la mais doce, ou se iremos estagnar e enfraquecer nossa fé.

Se você já se perguntou onde esses tipos de encruzilhadas aparecem nas Escrituras—onde existem decisões a serem tomadas que determinarão o destino da vida de uma pessoa—, uma passagem adequada sobre o assunto é Rute capítulo 1. Ali, vemos uma crise no cruzamento da vida de três mulheres—e que crise!

Na última vez que interagimos com essa família, eles haviam se tornado pessoas conhecidas da casa funerária. Todos já conheciam Noemi pelo nome lá. Primeiro, o marido de Noemi morreu. Daí, um de seus filhos morreu. Logo depois, o único outro filho dela—outro já adulto—também morreu.



A dificuldade, em sua essência, desenvolve profundidade.

Dores, sofrimentos e tristezas inevitavelmente nos colocam diante de encruzilhadas. O caminho que escolhemos nessas horas fará toda a diferença: podemos crescer e adoçar nossa fé, ou podemos estagnar e permitir que ela se enfraqueça.

Se você já se perguntou onde essas encruzilhadas—momentos de decisão que moldam o destino de uma vida—surgem nas Escrituras, o primeiro capítulo do livro de Rute oferece uma passagem exemplar. Ali, presenciamos uma profunda crise no cruzamento da vida de três mulheres. E que crise!

A família que encontramos nesta narrativa já estava marcada pela tragédia, tornando-se frequentadora conhecida da casa funerária. Primeiro, Noemi perdeu o marido. Em seguida, um de seus filhos. Logo depois, o único outro filho adulto também morreu.

Não existe uma descrição ou detalhe supérfluo; apenas três viúvas—Noemi e suas duas noras—lamentando a profundidade de sua perda.

Naquele mundo, época e cultura, esse lamento transcendia a simples dor. Essa perda ameaçava não apenas a felicidade futura dessas mulheres, mas sua própria sobrevivência.

Noemi, seu marido e seus dois filhos haviam deixado Belém, na crença de que deixavam os problemas para trás, esperando encontrar nada além de pastos verdes à frente. Contudo, dez anos depois, nada restava a Noemi em Moabe, exceto três túmulos, uma tristeza profunda e uma dor inimaginável.

Noemi estava diante de uma escolha: permanecer em Moabe para lamentar e morrer de fome, ou partir. Chegou a seus ouvidos que Belém, a Casa do Pão, voltava a ter comida para seus moradores.

Então, sem hesitação aparente, o verso 7 do capítulo 1 nos informa a decisão de Noemi:

Saiu, pois, ela com suas duas noras do lugar onde estivera; e, indo elas caminhando, de volta para a terra de Judá.

Era costume oriental que os anfitriões acompanhassem seus hóspedes de partida por uma certa distância, despedindo-se em um ponto específico da estrada. Parece ser este o cenário aqui. Essas três viúvas chegam juntas até à fronteira ou beirada do Rio Jordão, um pouco acima do Mar Morto.

Belém ficava a três dias de Moabe, e Noemi não queria que suas noras caminhassem uma distância tão longa antes da despedida, que era exatamente o que tinha em mente. Note o verso 8:

disse-lhes Noemi: Ide, voltai cada uma à casa de sua mãe; e o SENHOR use convosco de benevolência, como vós usastes com os que morreram e comigo.

Pode parecer estranho que Noemi as encoraje a voltar, não para a casa de seus pais, mas para a casa de suas mães. Isso não implica que os pais de Orfa e Rute fossem falecidos. Essa expressão refere-se ao “lugar da mãe”—a câmara ou o quarto materno onde os casamentos eram tradicionalmente planejados e arranjados.

Em outras palavras: “Minhas filhas, ouçam bem: vocês são jovens, têm uma longa vida pela frente. Voltem para suas mães e façam planos para um novo casamento.”

Noemi prossegue no verso 9 com sua bênção, dizendo:

O SENHOR vos dê que sejais felizes, cada uma em casa de seu marido. E beijou-as. Elas, porém, choraram em alta voz.

Lá mesmo, ao ar livre, despojadas de esperança, segurança e, em suas mentes, sem futuro, essas mulheres prantearam.

Três viúvas—suas vidas foram viradas de ponta-cabeça por expectativas frustradas e tristezas inesperadas. É raro encontrar um trecho das Escrituras tão tocante e repleto de afeição como este de Rute 1. Não se trata de uma, mas de três viúvas em profunda angústia, simultaneamente.

Essas mulheres se encontram em uma encruzilhada, tanto literal quanto figurativamente. E, em meio à sua dor, somos presenteados com uma poderosa lição sobre três respostas clássicas à mágoa, à desilusão e à tristeza.

Talvez você se identifique com uma dessas viúvas, ou quem sabe com todas as três.

O Dilema de Noemi

Vamos analisar Noemi mais detalhadamente. Seu nome, você deve se lembrar, significa “graciosa,” que também pode ser traduzido como “prazerosa” ou “doce.”

O paradoxo é que, ao longo dos últimos dez anos, ela se tornou amargurada. As expressões faciais de Noemi revelam a história de três túmulos e três grandes perdas. Sua conclusão? É melhor ficar sozinha.

Gostaria de fazer duas observações importantes a partir das palavras de Noemi.



1. Noemi Se Sente Indigna de Amor

Quatro vezes Noemi insiste para que suas noras voltem e a deixem sozinha. No versículo 10 e 11, vemos a primeira razão pela qual ela deseja que as jovens a abandonem:

Noemi disse: Voltai, minhas filhas! Por que iríeis comigo? Tenho eu ainda no ventre filhos, para que vos sejam por maridos?

Em outras palavras: “Já que meus filhos morreram, o compromisso do casamento acabou. Não há mais nada em mim digno de tê-las ao meu lado, seguindo-me e cuidando de mim. Sou apenas uma mulher velha. Certamente, vocês não se incomodarão mais comigo!”

Ao removermos as camadas da autocomiseração, percebemos que Noemi se convenceu de que Deus não a ama mais. Por isso, nem Orfa, nem Rute deveriam amá-la. Note a força de suas palavras nos versículos 12 e 13:

Tornai, filhas minhas! Ide-vos embora, porque sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos, esperá-los-íeis até que viessem a ser grandes? Abster-vos-íeis de tomardes marido? Não, filhas minhas! Porque, por vossa causa, a mim me amarga o ter o SENHOR descarregado contra mim a sua mão.

A mensagem é clara: “Deus está contra mim e não me ama mais.”

Se você chega ao ponto de se convencer de que Deus não o ama, torna-se impossível crer que outra pessoa possa amá-lo. Amar a Deus e crer que Deus o ama é, na verdade, o alicerce para receber e retribuir o amor dos outros. O amor verdadeiro, genuíno e sacrificial é impossível à parte do amor de Cristo.

Davi escreveu no Salmo 127:1: Se o SENHOR não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam.

O amor verdadeiro é sempre uma negociação a três. O compromisso inabalável que Rute demonstrará ter para com Noemi será possível apenas porque Rute já se comprometeu com o Deus vivo e verdadeiro, o Deus de Noemi.



2. Noemi Considera Deus Indigno de Adoração

Minha próxima observação é ainda mais severa.

Veja os versículos 14 e 15:

Então, de novo, choraram em voz alta; Orfa, com um beijo, se despediu de sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Disse Noemi: Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada.

Em outras palavras: “Voltem para os seus deuses; provavelmente, eles não farão nada pior do que o meu Deus fez.”

No verso 13, Noemi expressa que a mão de Deus está contra ela; • No verso 20, ela afirma que o Senhor agiu para com ela em amargura; • No verso 21, ela conclui que Deus é contra ela e a afligiu.

Em outras palavras, a dor de Noemi a leva a declarar: “Meu Deus realmente me decepcionou. Por que vocês não voltam aos seus deuses? Talvez, assim, se sairão melhor.”

A grande questão é: Por que Noemi encoraja suas noras a retornarem à adoração falsa aos deuses pagãos? O deus principal delas era Quemos, e a adoração a essa divindade envolvia o terrível sacrifício de crianças. Como uma mulher judia, filha de Abraão e herdeira da promessa, pode encorajar duas pagãs a se curvarem a falsos deuses?

Duas Possíveis Motivações

Podemos enxergar duas motivações para esse conselho:

A Tentativa de Encobrir a Infidelidade. Noemi desejava retornar a Belém sem que ninguém soubesse que ela e seu marido permitiram que seus dois filhos se casassem com mulheres pagãs. Ela estaria pensando: “Vou dar um jeito de encobrir nossa infidelidade a Deus.” Contudo, dois erros jamais constituem um acerto! Agindo assim, Noemi estava apenas aumentando sua culpa.

O Conselho Baseado na Falta de Fé. Talvez, e esta é, pelo menos na minha opinião, a visão mais provável, ela não estivesse encobrindo sua infidelidade, mas aconselhando essas mulheres baseada em sua profunda crise de fé. Noemi parecia estar dizendo: “Não vale muito a pena seguir a Deus. Já enterrei três pessoas em minha vida e é óbvio que o Senhor não se importa muito comigo.”



O Retorno Amargurado a Belém

Vamos avançar no tempo até o momento em que Noemi chega de volta a Belém. Note o verso 19:

“Então, ambas se foram, até que chegaram a Belém; sucedeu que, ao chegarem ali, toda a cidade se comoveu por causa delas, e as mulheres diziam: Não é esta Noemi?”

Em outras palavras, as ex-amigas e conhecidas de Noemi, com espanto e comoção, aproximam-se e perguntam: “Noemi, é realmente você?”

Note a resposta carregada de dor e revolta no verso 20:

“Porém ela lhes dizia: Não me chameis Noemi; chamai-me Mara.”

Ao dar esse nome, Noemi está dizendo: “Não me chamem mais de prazerosa ou doce (o significado de Noemi); chamem-me de amargurada (o significado de Mara)”, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso. Em sua mente ferida, ela conclui: “Ele me criou dessa forma. É tudo culpa dele!”

Em lugar algum nesta passagem lemos sobre o arrependimento de Noemi por ter abandonado o povo da aliança e a terra da promessa de Deus. Ela está mais interessada em suprir sua fome física do que em restaurar sua comunhão espiritual. Ela caminha novamente em sua terra, mas, ironicamente, não caminha com o Deus dessa terra.



A Mão de Deus em Ação

Note as palavras de Noemi no verso 21:

“Ditosa eu parti, porém o SENHOR me fez voltar pobre.”

Em certo sentido, Noemi está certa. Deus a fez voltar. Ela, no entanto, ainda não percebeu que Deus não a abandonou, apesar de ela estar praticamente abandonando o Senhor. Ela não tem ideia de que, naquele exato momento, o Senhor está operando na vida dela mais do que nunca antes.

Ela não tem ideia de que Deus tem planos de um novo marido para Rute, sua nora; e planos também de um filho para Rute, Obede, que se tornaria o bisavô do Rei Davi e ancestral do próprio Messias.

E nós agimos da mesma maneira. Quando em dor, temos a tendência de destacar o que não temos e ignorar o que temos. Contudo, existe um raio de esperança e discernimento enterrado nas palavras dela, pois, mesmo na amargura, ela reconhece: o Senhor a fez voltar.

Noemi diz no verso 21: “Saímos ricos e voltamos pobres.”

Agora, espere um segundo. Noemi e sua família partiram em meio a uma grande fome—eles tinham pouco para comer, viram a desvalorização de sua propriedade, e os inimigos midianitas estavam ali perto. Esse foi o motivo por que eles foram em direção aos campos férteis e verdes de Moabe.

Entretanto, note que Noemi diz a essas mulheres: “Nós éramos, na realidade, ricos!” Em outras palavras, “Tínhamos tudo o que era realmente importante aqui mesmo em Belém.”

A Encruzilhada da Viúva Orfa

Vamos, agora, voltar e dar uma rápida olhada na viúva Orfa, a segunda viúva nesse contexto de dor e sofrimento.

Quando Noemi, no início, mandou suas noras voltarem para suas mães, note no verso 10 que tanto Rute quanto Orfa recusaram. Ambas disseram: “Não! Iremos contigo ao teu povo.”

Contudo, depois Noemi lhes explica a dura realidade do que perderão, caso a sigam para Belém. E isso muda tudo.

Orfa entende bem a mensagem:

Como uma viúva moabita, sua vida seria difícil.

A perspectiva de um marido seria mínima.

Ela seria rejeitada pela comunidade judaica—moabitas e judeus não se davam bem; na verdade, eles se odiavam.

Ela deixaria sua nação, com todos os seus costumes e condições confortáveis, em troca de uma nova nação.

Ela estaria abandonando seus direitos como cidadã.

Ela não recebe perspectivas ou promessas.

Então, Orfa ergue a voz e chora, beija sua sogra e se despede.

Rute e Orfa revelam dois tipos de membros na igreja: os que professam fé e os que possuem fé de fato. Orfa fez uma profissão de fé, mas Rute possuía fé. E, de fato, nessa encruzilhada da vida, Orfa toma uma decisão que determinará seu destino eterno.

Ela se parece com muitos que conheço que: sentem que Cristo se intrometerá em suas vidas mais do que desejam; acreditam que Deus atrapalhará suas relações sociais e sua reputação; pensam que terão que deixar um ou dois ídolos; ou que seguir a Cristo pode significar ter que carregar uma cruz.

Orfa calcula os custos e decide retornar à escuridão. Ela ficou triste com isso e até derramou lágrimas verdadeiras. Mas, nessa encruzilhada da vida, ela escolhe voltar ao paganismo, a Moabe, aos seus deuses e, dessa vez, talvez a um bom homem moabita. Daí, Orfa desaparece do horizonte e a Bíblia nunca mais a menciona.

Noemi, então, diz no verso 15: “Bom, Rute, e você, está esperando o quê? Veja aí...”
..Eis que tua cunhada voltou ao seu povo e aos seus deuses; também tu, volta após a tua cunhada. “Vá também!”

O que ocorre em seguida é nada menos do que uma das maiores confissões de fé que encontraremos nas Escrituras.

A Decisão Radical de Rute

Rute se depara com uma encruzilhada monumental. O texto de Rute 1:16-18 registra sua resolução inabalável:

“Não me encistas para que te deixe e me obrigue a não seguir-te; porque, aonde quer que fores, irei eu e, onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus. Onde quer que morreres, morrerei eu e aí serei sepultada; faça-me o SENHOR o que bem lhe aprouver, se outra coisa que não seja a morte me separar de ti.”

Em essência, Rute declara a Noemi: "Não importa o que o futuro nos reserve ou para onde nos leve, eu permanecerei ao seu lado."



O Alto Preço da Fidelidade

Essa não é uma escolha ingênua. Rute está plenamente ciente de que Noemi não tem nada a oferecer além de pobreza e dificuldades. Ao seguir a sogra, Rute não tem absolutamente nada a ganhar, mas tudo a perder.

Noemi tentou dissuadi-la, sugerindo que Rute voltasse para sua mãe em Moabe. É fácil imaginar o diálogo com a mãe moabita: "Rute, você enlouqueceu? Eu sabia que esse casamento com o israelita daria problemas. Fique em Moabe, fique com sua família, adore nossos deuses, case-se com um bom moabita!"

Ao lermos essa história, frequentemente esquecemos a dimensão do sacrifício de Rute. Após a perda do marido, ela renuncia à sua cidadania, família, país, religião e segurança. Rute está, literalmente, abrindo mão do seu futuro.



Uma Decisão Sem Precedentes

Um autor sintetiza a profundidade de sua escolha:

Rute não possui nada. Nenhuma divindade prometeu abençoá-la; nenhum ser humano veio à sua ajuda. Ela vive e faz escolhas sem nenhum sistema de apoio e ela sabe que o fruto de sua decisão pode muito bem ser rejeição ou talvez até a morte. Ela se comprometeu à vida de uma viúva mais velha ao invés de à busca por um novo marido. Não existe nenhuma outra decisão tão radical como essa nos registros de Israel.

Duas vezes em seu discurso, Rute se refere ao Deus de Israel de forma profundamente pessoal. O Deus de Israel é Aquele em quem ela agora crê e confia para o seu futuro.



Três Respostas à Dor

A história apresenta três viúvas e três reações distintas a uma dor inevitável na vida:

Orfa vai embora — sua fé era superficial, fundamentada nas circunstâncias.

Noemi retorna — sua fé era fraca, influenciada negativamente pelas circunstâncias.

Rute chega — sua fé recém-descoberta foi além das circunstâncias; era uma fé totalmente independente das circunstâncias.

Nessa terra nova e estranha, Rute agarrou-se firmemente ao seu novo e recém-descoberto Deus vivo e verdadeir



Ao fim do capítulo, duas viúvas retornam a Belém. Uma é estrangeira, a outra, uma mulher que outrora desfrutava de prestígio e respeito em sua comunidade. Agora, no entanto, ambas estão completamente desamparadas, empobrecidas e condenadas a viver de esmolas.

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