O Projeto Muriquis do Caparaó tem como objetivo a pesquisa e a conservação dos muriquis-do-norte (Brachyteles hypoxanthus Kuhl, 1820) e do seu habitat no Parque Nacional do Caparaó. Este estudo foi idealizado por três jovens pesquisadores, biólogos apaixonados pelos muriquis – Mariane Kaizer, Daniel Ferraz e Alba Coli – que após anos de experiências estudando a espécie em outras localidades, e mais especificamente após atuação da equipe no estudo de longo prazo de uma população de muriquis situada no município de Caratinga, Minas Gerais, na Reserva Particular do Patrimônio Natural Feliciano Miguel Abdala resolveram colocar todas suas ideias no papel e criar um projeto em prol da conservação dos muriquis na Serra do Caparaó e pôr em prática tudo o que aprendemos até então.
Apesar de alguns esforços de pesquisas envolvendo a população de muriquis do Caparaó entre os anos 2000 e 2006, pouco se sabia sobre os muriquis do Parque, bem como toda a fauna primatológica existente nesta Unidade de Conservação. Com isso, nossa atuação naquela área era de extrema importância para a conservação dos muriquis e de toda a fauna associada ao ambiente em que eles vivem.
Nosso trabalho teve início no ano de 2012 com a formulação de um projeto e participação de nosso primeiro edital de financiamento à pesquisa. Estávamos caminhando bem e já tínhamos passado pela primeira fase do edital, mas devido a alguns problemas tivemos que cancelar nossa proposta prematuramente. Apesar dos contratempos, naquele momento criamos nossos principais objetivos e metas para os próximos anos, tínhamos todas as convicções que era uma questão de tempo para a realização de nosso sonho em continuar estudando os muriquis em uma nova e importante localidade, considerada prioritária para conservação da espécie. Bom, como não desistimos por aí, e após muitas conversas, reuniões e planejamentos, finalmente conseguimos nosso primeiro apoio financeiro em 2014 através do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) via Diretoria de Pesquisa, Avaliação e Monitoramento da Biodiversidade (DIBIO). Foi firmada uma parceria fundamental com os com gestores do Parque, especialmente com nosso amigo Waldomiro Lopes, Analista Ambiental do ICMBio, lotado no Parque Nacional do Caparaó, que dentre outras atividades era responsável pelo setor de pesquisas do Parque naquela época e foi ele quem coordenou este primeiro trabalho.
A partir daí o Projeto Muriquis do Caparaó começou de fato. Neste momento já era possível realizar o que todos nós mais queríamos, ir pra campo, conhecer a serra e ir atrás dos muriquis! Neste mesmo ano fizemos uma de nossas primeiras e mais empolgantes descobertas. Em solo mineiro, no município de Alto Caparaó, um novo grupo de muriquis, nunca registrado até aquele momento, em uma área inexplorada por pesquisas anteriores estava ao alcance de nossos olhos. Estávamos diante de uma de nossas joias. Faço aqui uma pausa para contar um pouco mais daquele momento eufórico que contagiou nosso dia.
Em meados de outubro de 2014 agendamos nossa primeira semana de campo, estávamos todos animados. Estavam presentes todos da equipe (Mariane, Alba, Waldomiro, Lelei nosso “mateiro” e eu). Após relatos do Lelei, que nos disse ter avistado um grupo de uns “macacos brancos grandes” na região há alguns anos atrás, fomos para o alto da serra fazer o reconhecimento da localidade e checar nossos possíveis pontos de acesso. Passava do meio dia, era uma hora ruim para procurar primatas, mas Lelei descrevia todas as características de um muriqui e isso nos empolgava, nos dava mais esperança. Logo nas primeiras horas de campo, seguíamos em fila indiana pela trilha quando de repente um “latido”, uma vocalização característica dos muriquis. Naquele momento, três primatólogos com larga experiência em muriquis olharam um para cara do outro não acreditando no que estavam escutando. Lembrando das palavras de um amigo pensei “será o impossível?”. Ficamos ali paralisados por alguns segundos, sem saber o que fazer, ainda na dúvida se aquele barulho era mesmo de um muriqui. Para nossa aflição a mata silenciou completamente por alguns minutos, apenas o barulho do vento constante chegava aos nossos ouvidos... mas de repente...em alto e bom som, um grande “relincho”, como chamamos a vocalização de longo alcance dos muriquis, ecoa por toda floresta, e em seguida várias vocalizações de diversos indivíduos pelo vale imenso foram ouvidas. Foram pulos de alegria, já não restava mais a dúvida, havíamos descoberto um novo grupo de muriquis! Estávamos com sorte neste dia, ou melhor, como sempre dizemos, estávamos com “coração puro” naquele momento.
Em 2015 nosso Projeto entra em uma nova etapa com o importante apoio do Conservation Leadership Programme (CLP) e ganha mais um membro especial, a bióloga e também primatóloga Aryanne Clyvia. Esta etapa do Projeto é marcada por novas parcerias, criação da identidade visual (logomarca do Projeto), capacitação de nossa equipe, uma abordagem mais ecológica e um grande esforço de sensibilização ambiental através de divulgação científica e intervenções nas escolas dos municípios do entorno do Parque. Criamos uma importante ferramenta para a divulgação do conhecimento sobre os muriquis e sobre o Parque Nacional do Caparaó, uma página do Facebook (https://www.facebook.com/muriquicaparao/). Neste canal descrevemos diariamente informações sobre a biologia, comportamento, ecologia e ameaças aos muriquis, além de muitas fotos, pensando sempre em um grande objetivo que é a conservação da espécie.
Novas áreas foram pesquisadas, outros grupos de muriquis foram registrados e várias outras espécies de primatas foram observadas no Parque, como os macacos-prego (Sapajus nigritus Goldfuss, 1809), sauá (Callicebus nigrifrons Spix, 1823), sagui-da-serra (Callithrix flaviceps Thomas, 1903) e o bugio (Alouatta guariba clamitans Humboldt, 1812). Além disso, importantes registros de mamíferos de médio e grande portes vêm sendo realizado.
Neste momento seguimos com nossos objetivos, estamos buscando por novas parcerias, ampliando nossos horizontes. A pesquisadora Mariane Kaizer está atualmente fazendo doutorado na Universidade de Salford na Inglaterra. Seus estudos, que preveem a utilização de novas tecnologias vai gerar novos conhecimentos e auxiliar na conservação dos muriquis. Eu, como Professor da Universidade do Estado de Minas Gerais Unidade Carangola, venho orientando e capacitando alunos da graduação em pesquisas envolvendo os muriquis e demais mamíferos do Parque Nacional do Caparaó.
OS MURIQUIS E O PARQUE NACIONAL DO CAPARAÓ
Os muriquis existem apenas na Mata Atlântica brasileira, ou seja, são endêmicos deste bioma que ocupava uma extensa faixa ao longo da costa brasileira, mas que atualmente está reduzida a menos de 12% de sua cobertura original. Originalmente haviam cerca de 400.000 indivíduos de muriquis espalhados por boa parte da Mata Atlântica, mas hoje os números não passam de 3.000, divididos em duas espécies: o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides É. Geoffroy, 1806), presente nos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro; e o muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus), alvo de nossos estudos, que ocorre nos estados de Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia.
Ambas espécies estão ameaçadas de extinção, porém, a situação dos muriquis-do-norte é ainda mais preocupante. Distribuídos em 12 populações remanescentes conhecidas que abrigam menos de 1000 indivíduos. Tais populações são, no geral, pequenas e isoladas. Desta forma, os muriquis-do-norte estão classificados na categoria Criticamente em Perigo na Lista Nacional da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção e na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A espécie também é considerada Em Perigo e Criticamente em Perigo nas listas de Minas Gerais e Espírito Santo, respectivamente.
O muriqui é uma espécie pouco agressiva, ao contrário da maioria dos primatas vivem em uma sociedade pacífica e igualitária, não há dimorfismo entre machos e fêmeas, não brigam nem pelo domínio de um grupo, nem pela comida e nem pelo acasalamento. Se alimentam de folhas novas ou maduras, brotos, flores e cascas de árvores, mas sempre que disponíveis, os frutos são seu alimento preferido. Isso faz com que os muriquis sejam ótimos dispersores de sementes. Além disso, apresentam comportamento social bastante interessante, onde é constante a realização de abraços entre os indivíduos do grupo. O nome muriqui, que em tupi quer dizer “povo tranquilo”, é uma ótima tradução ao comportamento social pacífico desta espécie.
Dentre as áreas de ocorrência do muriqui-do-norte está o Parque Nacional do Caparaó, uma das cinco áreas prioritárias para conservação da espécie que abriga, talvez, uma das maiores populações de muriquis do país. Por outro lado, há uma grande falta de informação sobre a história natural dessa população e suas principais ameaças. O Parque Nacional do Caparaó é uma Unidade de Conservação Federal, criada em 24 de maio de 1961 pelo decreto federal nº 50.646, cujo objetivo maior é proteger o terceiro pico mais alto do país, o Pico da Bandeira, que tem 2.892 metros de altitude. O Parque abrange um território de aproximadamente 31,8 mil hectares e está localizado na divisa entre os estados do Espírito Santo e Minas Gerais (20º29’43”S - 41º49’40”O) e ocupa cinco municípios do lado capixaba (Dores do Rio Preto, Divino de São Lourenço, Ibitirama, Iuna e Irupi) e quatro do lado mineiro (Alto Jequitibá, Alto Caparaó, Caparaó e Espera Feliz).
Avistei um muriqui na natureza, e agora, o que fazer?
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PS: Matéria divulgada no Jornal Horizonte das Gerais, Ano II - Nº004, 04 de novembro de 2016 (Com adaptações).