Política não se discute! Sempre ouvi dizer que futebol, religião e política não se discute. A pretensa sabedoria desse provérbio, assim como em todos os outros, se esconde por detrás do provérbio maior "a voz do povo é a voz de Deus". Pois, se Deus fala por meio do povo, e este possui seus provérbios, então devem estar certos, não é mesmo? Mais tarde descobri que a tal da voz do povo é, muitas vez
es, ecos das vozes dos "donos do poder", feliz denominação de Raymundo Faoro para aqueles que tratam a coisa pública como extensão de seus negócios privados. Não que eu esteja desmerecendo a sabedoria popular, mas não a coloco num patamar de legitimidade absoluta. Desse modo, não querer discutir política, seja partidária ou como forma de organização social, é um erro gravíssimo que ainda está se cometendo. Essa perigosa indiferença dos cidadãos pelos assuntos políticos pode ser denominada de "qualunquismo", do italiano "qualunque", que significa "qualquer um", "qualquer que seja". Essa palavra, que você não encontrará nos dicionários brasileiros, se traduz por frases apáticas do tipo "todos os políticos são iguais". O qualunquismo é um prato cheio para os "donos do poder", porque desloca a atenção dos eleitores para outras características do candidato que não seja sua competência política em administrar o bem comum, desestimulando o debate. Decorrente da "política não se discute", a falta do hábito da discussão abre espaço para preconceitos e mesquinharias muito presentes nas eleições. Acredito que o debate deve passar por essas questões, e não em mesquinharias provindos do "achismo" e da falta do conhecimento dos fatos. Um debate maduro e inteligente, com vistas ao maior bem para o maior número de pessoas, diluindo do imaginário social o adágio "política não se discute". Parte do texto escrito:
Por MAURÍCIO CUSTÓDIO SERAFIM
Professor do curso de Economia
da Universidade do Extremo Sul Catarinense
Unesc (Criciúma-SC)