19/07/2026
No lugar onde as palavras criam quilombo
Por vezes, uma instituição nasce muito antes de existir.
Há cidades que escrevem seus habitantes.
Cachoeira é uma delas.
Quem atravessa lentamente as ruas de pedra, acompanha o curso do Paraguaçu ou permanece alguns minutos diante das fachadas antigas percebe que ali a história não repousa nos monumentos. Ela continua respirando entre os terreiros, as igrejas, os becos, as feiras, os tambores, as bibliotecas, as conversas demoradas e os livros que insistem em nascer longe dos grandes centros editoriais.
Talvez por isso não seja possível compreender a Casa Amefricana da Poesia – Quilombo da Palavra apenas como uma associação cultural.
Ela é consequência de uma geografia.
Nasceu porque um território decidiu falar por si.
Durante muitos anos, encontros aparentemente dispersos foram desenhando uma cartografia invisível.
Um livro publicado.
Outro traduzido.
Uma roda de conversa.
Uma política pública construída coletivamente.
Uma viagem.
Um poeta cubano.
Uma pesquisadora colombiana.
Uma editora independente instalada no Recôncavo.
Uma livraria.
Uma amizade.
Uma travessia pelo Atlântico.
Nada parecia obedecer a um plano previamente desenhado.
Mas havia um fio.
Sempre houve.
Era o desejo de compreender que as margens do Atlântico continuam conversando entre si muito depois do fim oficial das rotas coloniais.
Foi assim que nasceu o Quilombo Amefricano de Literaturas.
Não como um festival.
Nem como um congresso.
Mas como um espaço onde diferentes margens da Améfrica pudessem voltar a se reconhecer.
A primeira travessia encontrou Havana.
Depois veio Cartagena das Índias.
Por fim, Cachoeira.
Três cidades.
Três portos.
Três experiências marcadas pela presença africana e pela permanência de culturas que transformaram violência histórica em criação.
Cada encontro ampliava a percepção de que literatura não é apenas um conjunto de livros.
É também diplomacia.
Memória.
Política pública.
Afeto.
Economia.
Território.
E sobretudo encontro.
Foi nesse percurso que escritores, pesquisadores, gestores culturais, artistas e instituições passaram a construir algo maior do que eventos.
Construíram confiança.
No dia 19 de julho de 2024, enquanto acontecia a terceira edição do Quilombo Amefricano de Literaturas, ocorreu aquilo que, visto de fora, poderia parecer apenas um ato burocrático.
A assinatura de um estatuto.
A eleição de uma diretoria.
A criação formal de uma associação.
Mas quem estava presente sabia que acontecia outra coisa.
No Salão Nobre da Augusta e Respeitável Loja Maçônica Caridade e Segredo, em Cachoeira, não se fundava apenas uma pessoa jurídica.
Reconhecia-se oficialmente uma comunidade que já existia.
Uma comunidade formada pela palavra.
Pela leitura.
Pela pesquisa.
Pela edição de livros.
Pelas amizades construídas entre Brasil, Cuba e Colômbia.
Pela convicção de que conhecimento também pode ser produzido desde os territórios negros do Atlântico.
Ali nascia a Casa Amefricana da Poesia.
Ou talvez apenas recebesse um nome aquilo que já caminhava havia muitos anos.
Não deixa de ser simbólico que entre seus sócios fundadores estejam vozes oriundas de diferentes geografias.
O poeta cubano Sinecio Verdecia Díaz, da Casa de Poesia de Havana.
O pesquisador colombiano Wilfredo Esteban Vega Bedoya, da Universidade de Cartagena.
O poeta Rómulo Bustos Aguirre, cuja obra ajudou a aproximar os diálogos construídos na cidade amuralhada de Cartagena.
Ao lado deles, escritores, pesquisadores, educadores, artistas, museólogos e gestores culturais brasileiros que vêm dedicando suas vidas à construção de políticas do livro, da leitura, da cultura e da memória.
Poucas instituições brasileiras nascem já atravessadas por essa dimensão internacional.
Menos ainda quando essa internacionalização não parte do Norte global, mas das margens atlânticas que compartilham histórias semelhantes.
Talvez essa seja uma das maiores singularidades da Casa Amefricana da Poesia.
Sua internacionalização nasce do reconhecimento entre iguais.
Também não deixa de ser significativo que sua sede esteja instalada em Cachoeira.
Cidade que fez da palavra um instrumento de liberdade.
Ali convivem oralidade, patrimônio, religiosidades afro-brasileiras, universidade, imprensa, poesia, tipografia, música e memória.
Instalar um Quilombo da Palavra nesse território significa reconhecer que desenvolvimento cultural não se mede apenas por indicadores econômicos.
Mede-se pela capacidade de uma comunidade continuar produzindo sentidos sobre si mesma.
Há quem imagine que instituições culturais sejam construídas apenas por financiamentos ou editais.
Eles são importantes.
Mas nunca bastam.
Instituições duradouras nascem quando existe uma história anterior capaz de sustentá-las.
No caso da Casa Amefricana da Poesia, essa história foi escrita lentamente.
Entre livros publicados pela Portuário Atelier Editorial.
Nas experiências da Bibliosfera Criativa Brasil.
Nas políticas públicas para o livro e a leitura.
Nas pontes estabelecidas entre Cachoeira, Havana e Cartagena.
Nas centenas de pessoas que passaram pelas diferentes edições do Quilombo Amefricano de Literaturas.
Nada disso começou em 2024.
2024 apenas tornou visível aquilo que o tempo já havia sedimentado.
Talvez seja cedo para medir o alcance dessa iniciativa.
Instituições verdadeiras não se afirmam pela velocidade.
Elas amadurecem.
Criam raízes.
Aprendem a permanecer.
Mas já é possível afirmar que, no coração do Recôncavo baiano, uma experiência singular continua sendo construída.
Um lugar onde a literatura não é separada da vida.
Onde políticas públicas dialogam com poesia.
Onde memória produz futuro.
Onde o livro volta a ocupar seu lugar ancestral: não apenas objeto de leitura, mas instrumento de encontro entre povos.
E talvez seja exatamente isso um quilombo.
O lugar onde pessoas decidem permanecer juntas para proteger aquilo que nenhuma violência consegue apagar.
A palavra.