22/08/2026
Que a aquarela flua como água do rio que nunca esquece seu leito. Que a voz do canto caia como a chuva que ensina a terra florecer.
O pintor Alcides Catacora toma o pincel e a memoria se debruça. Não é tinta, é folha de coca, carvão de fogueira ancestral, terra que ainda pulsa. Não pinta paisagens, pinta pertences, fios que tecem dinovo o mundo que nos tentaram quebrar. Vá manchando o papel branco de presencias silenciadas que a colonia chamou "descoberto".
Hoje 20 de agosto, o pintor retrata seu irmão, o poeta cantor Ricardo Gallegos Sanz. Não o pinta em pose heróica, o pinta sentado, com seu violão à beira de um silêncio antigo, o rostro lavado de lua.
Ricardo canta huaynos e yaravíes, lamentos que choram a terra roubada, o idioma quebrado, o corpo que ainda doi. O yaraví não é canto, é lamento serrano erguido, rezo sem resposta, grito indígena que sabe que a historia não foi justa mas ainda insiste em cantar.
O pintor captura este instante, pinta as rugas que a tristeza excavóu no rostro do poeta, mas também a luz que brilha na pupila. Porque huayno e yaraví são resistência, prova que um povo não morre enquanto sua voz retumba.
O poeta, ao se ver retratado, entende que sua música agora tambem é imagem um corpo e alma que não se rinde. Juntos pintor e poeta criarão uma obra que não cabe nas galerias e palcos, as melodias se fazem trazo e cor, e o cuadro pulsa ao ritmo antiguo não silenciado.
Porque ser decolonial é pintar com tinta que não seca, cantar a palavra viva que pulsa do povo. Não pedem permissão, retoman a tela, o sonido, o corpo, a historia. Sua obra é territorio livre, donde cor e acorde desobedecem o compás do colonizador e danzam ao ritmo da Pachamama.
Pincel, voz, tinta e canto, seguem despintando o imposto, reescutando ao calado, refazendo ao mundo com a delicadeza de quem sabe que a revolução cabe em um acorde e vive em uma pincelada. Porque aquarela e poesía originarias não embelezam, denunciam, curam, celebram e profetizam.
O río segue correndo. O huayno, ressoando. O yaraví, baixando pelo serrado como agua que nunca deixo de procurar o mar. E a tela, ao final, está apenas a comenzar.
Diony Gallegos Sanz
Foto: Jorge Gallegos Sanz