13/04/2025
Faça algo
Éramos seis amigos que apenas nos acomodávamos numa pizzaria em Ipanema e, animados, escolhíamos o que comer e beber. Esta era a cena na noite do último sábado, cena corriqueira, não fosse pelo que se sucedeu logo naqueles primeiros minutos: um jovem senhor se levantou da mesa ao meu lado e entregou um bilhetinho à minha prima, sentada à minha esquerda. O amigo à minha frente deu um risinho. Paquera à moda antiga? Só que não...
Minha prima guardou o bilhete, e só lá pro fim do jantar, quando o autor do recadinho foi embora, ela leu pra mim as seguintes palavras: “Se eu pudesse fazer algo diferente hoje, emprestaria meus olhos para esta moça a seu lado. Ela não precisa saber, por certo, há de sentir. Deus a abençoe!!!” Num primeiro momento minha prima até se comoveu, mas acho que minha reação estragou a poesia da cena pra ela. Não é a primeira vez que ouço essas expressões de compaixão, frases como “se eu pudesse eu te dava meus olhos”, e, desculpem, mas elas sempre me incomodam, no sentido de que me fazem pensar, e aí decidi compartilhar com vocês minhas reflexões: “se eu pudesse...” Mas não pode! Então por que não fazer algo possível? Eu fico com a fala de uma coordenadora do curso de psicologia de uma faculdade onde palestrei e cantei; ao fim da minha apresentação, várias alunas, quase psicólogas formadas, choravam, e a coordenadora disse com firmeza: “Não precisa chorar não, pega essa emoção e transforma em ação.” Frieza? Claro que não; num momento difícil, qualquer que seja ele, na vida de qualquer um de nós, se a compaixão do outro não nos chega em forma de uma atitude positiva, ela serviu de quê? Quer me emprestar seus olhos? Será que eu preciso? Será que me falta algo aqui tomando um chopp e me divertindo com meus amigos? Será que sou incompleta sem a visão física? Ah, entendi, só queria que minha vida fosse melhor? Então faça algo por mim, e por qualquer pessoa cega, pela sociedade. Tem um estabelecimento comercial? Contrate uma pessoa com deficiência para dar um treinamento a seus funcionários para atenderem da melhor forma um consumidor com deficiência! É médico? Certifique-se de que seu consultório é acessível e de que você está capacitado pra lidar com a pessoa e não só com a deficiência ou com a patologia dela! É professor? Faça seus alunos pesquisarem sobre o tema, entrevistarem uma pessoa com deficiência e, de alguma forma, exercitarem a empatia!Aposentado com muito tempo livre? Procure um trabalho voluntário com pessoas com deficiência, existem muitos! É empresário? Contrate profissionais com deficiência independentemente da lei de cotas, e se surpreenda com o resultado, torne sua empresa uma referência em inclusão e acessibilidade.
Compreendo e acolho a comoção das pessoas em relação à cegueira, especialmente das pessoas que não convivem com alguém com a deficiência (embora ainda muita gente que trabalha na inclusão ou familiares de pessoas cegas não se resolveram com certas emoções e conceitos), e essa comoção reflete uma mentalidade pautada em preconceitos historicamente explicados... a ideia de que todo cego vive em casa chorando, como ouvi outro dia de uma paulistana de aproximadamente 50 anos, ou de que todo cego é coitado, incapaz, dependente, digno de misericórdia, doente à espera da cura, tudo isso é fruto de questões históricas nas quais não vou me aprofundar aqui ou eu escreveria um livro inteiro. Mas o mundo está mudando, minha gente, e precisamos atualizar nossa mentalidade. Se o senhor naquela pizzaria viesse diretamente me perguntar se eu queria algo emprestado, eu provavelmente diria “sim, um bom dinheiro, por favor.” Visão ou os olhos dele seria provavelmente a última coisa na qual eu pensaria. Sim, precisamos de ajuda muitas vezes (e quem não precisa?), precisamos de um olho emprestado pra realizar algumas tarefas que ainda nos são inacessíveis por conta do despreparo do mundo, e não nosso. Mas o que preciso na vida é de autonomia, igualdade de oportunidades, acessibilidade, atitudes inclusivas, respeito à minha maneira diferente de ver o mundo. Se um dia vier a visão de volta, seja por células tronco, por chip implantado no cérebro ou por um milagre, será muito bem-vinda, mas, enquanto não acontece, o mundo gira, a vida corre, e meu papel é viver da melhor forma com o que tenho aqui e agora. Aquele senhor não me conhece, apenas me vê chegar e já decide que eu preciso de seus olhos, sua visão, sua ajuda, e, como muitos, acha mais fácil continuar na zona de conforto dos velhos conceitos e na ilusão da superioridade do que se aproximar do que é diferente e compreender uma outra forma de pensar e de estar no mundo, compreender que este “diferente” talvez nem seja tão diferente assim e que possivelmente tem até muito mais coisas a “emprestar” a ele do que o contrário. Se ele tivesse falado diretamente comigo, teríamos desenrolado uma conversa interessantíssima, e, quem sabe, até iniciado uma bela amizade; ou, se o medo de encarar os próprios medos, o próprio desconforto de não saber o que fazer ao se aproximar de mim fosse insuportável, bastava ele simplesmente me observar até o momento em que ficou na pizzaria e ele teria feito uma leitura mais amadurecida de mim e da situação; e aí sim ele teria se dado a oportunidade de se comover, se fosse o caso; depois refletir sobre sua comoção e, quem sabe, decidir realmente fazer algo.
Sara Bentes
PS: E se você não é empresário, nem médico, nem comerciante, nem professor, nem
aposentado com tempo livre, mas deseja fazer algo, comece compartilhando este texto. 😉
Gratidão! 🙏♥️