Está situada na região do Vale do Cariri, conhecido celeiro dessa variedade de expressões culturais e populares de cultura, onde Barbalha é vista como sendo um desses lugares mágicos que trazem a marca de tradições renovadas e de uma grande riqueza de manifestações de crenças, folguedos e artes populares. Situada nos verdes canaviais do Vale da Salamanca, com seus casarios senhoriais, engenhos e c
asas mais humildes, Barbalha parece ser uma pérola brilhando ao sol, bem no coração de uma concha, formada pelo verde Vale do Cariri, que se espraia em um abraço amoroso e fértil ao sertão, a partir do sopé da Chapada do Araripe. Barbalha tem assim a distinção da sua história, geografia e cultura, tanto erudita como popular. A Barbalha do Gabinete de Leitura e da erudição do Dr. Napoleão Tavares - guardião incansável e amoroso de sua memória histórica – é também a Barbalha de manifestações culturais ricas e complexas, como as Ordens de Penitentes, os Reisados, as Lapinhas, os Paus de Fitas, as rodas de Maneiro Pau, as Quadrilhas e, principalmente, a grande festa de Santo Antônio, que a todos reúne e unge, com a graça do seu Divino amor e da sua generosidade. Um dos motivos de escolha de Barbalha para sediar a Fundação Escola de Saberes é o fato de já realizar um trabalho pioneiro, através do trabalho de muitas pessoas que se dedicam à preservação da memória e da cultura da região, ao mesmo tempo em que se abre como importante centro de encontro das culturas contemporâneas. O município de Barbalha soma-se a Juazeiro e Crato, acrescentando manifestações originais e preciosas, que vêm juntar-se ao grande tesouro das culturas populares do Brasil. Como expressão dessas culturas, temos as histórias escritas com sangue nas areias de desertos ancestrais e adivinhadas em versos pelos cegos rabequeiros; as formas de vida modeladas no barro e revitalizadas pelo sopro da beleza; o coração dos homens que, habitando a terra bruta, se faz terno ao ser ferido pelos espinhos da poesia mais agreste; um mundo de realidades sonhadas nos contrastes das xilogravuras que ilustram os milagres e maravilhas da literatura de cordel; o dom dos mil ritmos nas canções dos cantadores ambulantes; os pastoris e caboclinhos cheios de graça e de luz; o encanto dos reisados de Congo e de bailes, com suas fitas coloridas e espelhos que refletem o sol; os penitentes com suas vozes profundas e a grandeza demasiadamente humana de quem sofre para minimizar o sofrimento do irmão; tudo traduzido no mundo crenças, de cores, de ritmos e de sensualidade da Festa do Pau da Bandeira, ou na expressão mais profunda espiritual das grandes romarias de Juazeiro. A Escola de Saberes de Barbalha foi criada com o intuito de valorização, repasse entre gerações e revitalização de expressões culturais de inestimável valor social e histórico, identitário e reafirmativo das especificidades e universalidades culturais do município e região onde está instalada, sabendo-o parte de um processo social secular e de alcance temporal e espacial bem mais amplo, que liga-nos à história de múltiplos e do mundo. Tem como foco, por ocasião de sua implantação, a oferta de dez cursos: reisado, presépios, bordado, cerâmica, talha de madeira, culinária, cordel e xilogravura, máscaras e caretas, danças de roda, música tradicional – coral, violas e pífanos. Os artistas populares serão os grandes mestres repassadores desses saberes, sendo a Escola de Saberes de Barbalha um espaço apropriado para recebê-los com dignidade para que possam transmitir os seus saberes aos jovens, com eficiência e interatividade, segundo as diversas tradições inscritas na região. Esse repasse envolve diferentes gerações e as diversas manifestações artísticas ali existentes, chegando a acolher elaborações e leituras dessas expressões culturais vistas do nosso tempo contemporâneo. Pretende-se abrir um processo que envolve encontro, troca e aprendizado, interfronteiras e interclasses sociais, numa concepção de cultura em trânsito, como o é a própria vida. Os saberes que emergem de uma base social e popular, a partir das complexidades sociais, circunstâncias econômicas e históricas, determinam qual é o desenho da tradição, que, por sua vez, se transforma em nova tradição e o que será manifestação cultural de fluxo constante, sempre em transformação. Nesse sentido, evitar-se-á falar de culturas populares como “sacrários originais e sagrados” a serem conservados, sabendo-se que tudo está em movimenta, tudo se interpenetra, tudo se apaixona e se repele, no fluir cotidiano das sociedades e da história, envolvendo assim diversas temporalidades e espacialidades, que vão do local ao regional, deste ao nacional, vinculando-o ao espaço internacional, sem pretender dissolver diferenças culturais em todos pasteurizados e empobrecedores da diversidade.