02/05/2024
Nesse dia 02 de maio, aniversário da elevação de Baependi a categoria de cidade, a Associação Cultural Estação Baependy publica, com alegria, mais um de seus prestigiados artigos.
Leia a seguir.
ARTIGO| Um retrato de Baependi através do Almanak Sul Mineiro – 1884
Por Patrícia Silvério Calisto Oliveira*
Alguns documentos históricos são verdadeiras máquinas do tempo, que nos permitem desembaçar parte da janela do passado. Isso porque as fontes são criadas com intencionalidades diversas por parte de quem as produz e também porque a História é, por natureza, uma ciência interpretativa e subjetiva.
No “Almanak Sul-Mineiro”, publicado em 1884 pela tipografia de Bernardo Saturnino da Veiga, em Campanha, Minas Gerais, encontramos um interessante resumo sobre as principais características do Município de Baependy, ao qual pertenciam as freguesias de Nossa Senhora da Conceição do Rio Verde, de São Tomé das Letras, de São Sebastião da Encruzilhada e de Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu.
Redigido 28 anos após a elevação da Vila à categoria de cidade, o documento usa de um tom pessimista ao falar do progresso baependiano: “Baependy, apesar das imensas riquezas mineraes que possue em seu solo, não tem prosperado como era de esperar, e, como muitas de nossas cidades, adquire tardio progresso à custa de imensos sacrifícios”.
De acordo com o documento, duas igrejas estavam sendo reformadas: a Matriz de Nossa Senhora do Montserrat e a dedicada à Nossa Senhora do Rosário. E duas sendo construídas: a de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora da Boa Morte. Havia dois cemitérios: o paroquial, situado próximo à praça da Matriz e outro pertencente à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês.
A cidade contava com uma Santa Casa de Misericórdia construída em grande parte por doações, uma vez que a quantia de 9 ontos de reis, enviada pelo governo provincial, havia sido insuficiente. Fora inaugurada em janeiro de 1881.
Na área urbana havia 200 casas, aproximadamente. Um prédio da Câmara Municipal, uma cadeia baixa, com duas enxovias1, que se encontrava em péssimo estado e que abrigava 8 presos; e uma praça de mercado que funcionava diariamente.
O abastecimento de água era regular e havia 8 chafarizes públicos com água abundante. Um fiscal era responsável pelos chafarizes da cidade, evitando desperdícios. Os chafarizes mais procurados eram os que f**avam em frente à Matriz e em frente à Capela de Nossa Senhora da Conceição2.
Havia três escolas públicas de ensino primário: duas masculinas e uma feminina. Havia também uma escola particular feminina.
Um teatro funcionava na casa de João Baptista da Motta, reunindo a juventude local. A cidade ainda contava com duas bandas de música. Dez famílias possuíam pianos em casa.
Na Câmara, havia sido criada uma biblioteca com mil volumes, com o apoio financeiro da província de Minas. A tipografia de Amaro Carlos Nogueira publicava "O Baependyano" e "O Bohemio", semanalmente.
Por esta época a cidade já vivia sob os ruídos de insatisfação com a
escravidão. Joaquim Nabuco já havia se pronunciado na Câmara dos Deputados em favor da abolição. Em janeiro de 1884 houve, no Paço Municipal de Baependy, uma audiência destinada à libertação dos escravos. Cartas de liberdade foram entregues e o nome de Rio Branco foi exaltado. Uma banda de música se encarregou da comemoração3.
Estavam inscritos na coletoria local 2.716 escravizados e 1.559 ingênuos4 na cidade de Baependy. De acordo com o Almanak, 48 escravizados já haviam sido libertados pelo fundo de emancipação da cidade.
A principal cultura agrícola era a de fumo. Plantava-se também cana e cereais. Criava-se gado e o toucinho era “exportado” em grande quantidade. Além disso eram vendidos queijos e velas para outras províncias.
Havia uma linha de correio de 2 em 2 dias para a Corte, no Rio de Janeiro, e outra de 5 em 5 dias para a cidade de Ayuruoca.
Para enxergarmos esse momento histórico com maior precisão, evoquemos personalidades conhecidas que o vivenciaram: Nhá Chica era idosa e já tinha fama de santidade. Desenvolvia com devoção as atividades da Capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, no alto do morro das Cavalhadas, numa rua de terra, entre casas simples feitas de adobe e telhas de barro5 .
Monsenhor Marcos, o pároco, com seus 37 anos, celebrava missas e outras cerimônias litúrgicas. Com sua excelente oratória, “sempre comovia seu rebanho até as lágrimas”6 . Além disso, dedicava-se pessoalmente às obras da Matriz. O Baependyano, em edição de 4 de março de 1883, exaltava os trabalhos no frontispício
da Matriz desenhado pelo pároco7 .
Francisco Raposo, maestro, vivia de sua arte musical percorrendo as
distâncias entre Rio e São Paulo e também tocando em sua terra natal, como o fez em 1878, liderando a festividade anual dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, na Capela a ela dedicada.
O religioso Cônego Monte Raso comandava com zelo as atividades da Santa Casa de Misericórdia que f**ava onde hoje é a Escola Montserrat.
Longe de atestar opulência, Baependy era, em 1884, uma cidade simples e pacata, tendo origens bastante antigas e forte tradição religiosa, o cotidiano era assinalado pela religiosidade católica: as festividades litúrgicas marcavam o calendário anual e o toque dos sinos fazia-se presente no dia a dia dos habitantes.
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FONTES E REFERÊNCIAS
1 Enxovias eram os porões das prisões;
2 SEDA, Rita Elisa. Nhá Chica: Mãe dos pobres. 1ªedição. São José dos Campos, SP: Editora ComDeus, 2013.
3 PELÚCIO, José Alberto. Baependi. São Paulo: Gráf**a Paulista, 1942.
4 Ingênuos eram assim chamadas as crianças filhas de escravizados.
5 SEDA, Rita Elisa. Nhá Chica: Mãe dos pobres. 1ª.edição. São José dos Campos, SP: Editora ComDeus, 2013.
6 Idem.
7 PELÚCIO, José Alberto. Templos e crentes. São Paulo: Gráf**a Paulista, 1942.
* Patrícia Silvério Calisto Oliveira é licenciada em História (UEMG, 2015) e em Normal Superior (UNIPAC, 2009), Especialista em Práticas de Letramento e Alfabetização (UFSJ, 2019) e em Arquivo: Patrimônio histórico, artístico e cultural (UNILEYA, 2022). Colaboradora da Estação Baependy - Associação Cultural