Estação Baependy - Associação Cultural

Estação Baependy - Associação Cultural Nascemos da ideia de trazer para a cidade, opções de cultura e projetos que envolvam o seu desenvolvimento.

"Mude você, mude o mundo; os verdadeiros progressos se forjam melhorando primeiro o ser humano" (José Livraga)

02/05/2024

Nesse dia 02 de maio, aniversário da elevação de Baependi a categoria de cidade, a Associação Cultural Estação Baependy publica, com alegria, mais um de seus prestigiados artigos.
Leia a seguir.

ARTIGO| Um retrato de Baependi através do Almanak Sul Mineiro – 1884

Por Patrícia Silvério Calisto Oliveira*

Alguns documentos históricos são verdadeiras máquinas do tempo, que nos permitem desembaçar parte da janela do passado. Isso porque as fontes são criadas com intencionalidades diversas por parte de quem as produz e também porque a História é, por natureza, uma ciência interpretativa e subjetiva.

No “Almanak Sul-Mineiro”, publicado em 1884 pela tipografia de Bernardo Saturnino da Veiga, em Campanha, Minas Gerais, encontramos um interessante resumo sobre as principais características do Município de Baependy, ao qual pertenciam as freguesias de Nossa Senhora da Conceição do Rio Verde, de São Tomé das Letras, de São Sebastião da Encruzilhada e de Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu.

Redigido 28 anos após a elevação da Vila à categoria de cidade, o documento usa de um tom pessimista ao falar do progresso baependiano: “Baependy, apesar das imensas riquezas mineraes que possue em seu solo, não tem prosperado como era de esperar, e, como muitas de nossas cidades, adquire tardio progresso à custa de imensos sacrifícios”.

De acordo com o documento, duas igrejas estavam sendo reformadas: a Matriz de Nossa Senhora do Montserrat e a dedicada à Nossa Senhora do Rosário. E duas sendo construídas: a de Nossa Senhora da Conceição e a de Nossa Senhora da Boa Morte. Havia dois cemitérios: o paroquial, situado próximo à praça da Matriz e outro pertencente à Irmandade de Nossa Senhora das Mercês.

A cidade contava com uma Santa Casa de Misericórdia construída em grande parte por doações, uma vez que a quantia de 9 ontos de reis, enviada pelo governo provincial, havia sido insuficiente. Fora inaugurada em janeiro de 1881.

Na área urbana havia 200 casas, aproximadamente. Um prédio da Câmara Municipal, uma cadeia baixa, com duas enxovias1, que se encontrava em péssimo estado e que abrigava 8 presos; e uma praça de mercado que funcionava diariamente.

O abastecimento de água era regular e havia 8 chafarizes públicos com água abundante. Um fiscal era responsável pelos chafarizes da cidade, evitando desperdícios. Os chafarizes mais procurados eram os que f**avam em frente à Matriz e em frente à Capela de Nossa Senhora da Conceição2.

Havia três escolas públicas de ensino primário: duas masculinas e uma feminina. Havia também uma escola particular feminina.
Um teatro funcionava na casa de João Baptista da Motta, reunindo a juventude local. A cidade ainda contava com duas bandas de música. Dez famílias possuíam pianos em casa.

Na Câmara, havia sido criada uma biblioteca com mil volumes, com o apoio financeiro da província de Minas. A tipografia de Amaro Carlos Nogueira publicava "O Baependyano" e "O Bohemio", semanalmente.

Por esta época a cidade já vivia sob os ruídos de insatisfação com a
escravidão. Joaquim Nabuco já havia se pronunciado na Câmara dos Deputados em favor da abolição. Em janeiro de 1884 houve, no Paço Municipal de Baependy, uma audiência destinada à libertação dos escravos. Cartas de liberdade foram entregues e o nome de Rio Branco foi exaltado. Uma banda de música se encarregou da comemoração3.

Estavam inscritos na coletoria local 2.716 escravizados e 1.559 ingênuos4 na cidade de Baependy. De acordo com o Almanak, 48 escravizados já haviam sido libertados pelo fundo de emancipação da cidade.

A principal cultura agrícola era a de fumo. Plantava-se também cana e cereais. Criava-se gado e o toucinho era “exportado” em grande quantidade. Além disso eram vendidos queijos e velas para outras províncias.

Havia uma linha de correio de 2 em 2 dias para a Corte, no Rio de Janeiro, e outra de 5 em 5 dias para a cidade de Ayuruoca.

Para enxergarmos esse momento histórico com maior precisão, evoquemos personalidades conhecidas que o vivenciaram: Nhá Chica era idosa e já tinha fama de santidade. Desenvolvia com devoção as atividades da Capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição, no alto do morro das Cavalhadas, numa rua de terra, entre casas simples feitas de adobe e telhas de barro5 .

Monsenhor Marcos, o pároco, com seus 37 anos, celebrava missas e outras cerimônias litúrgicas. Com sua excelente oratória, “sempre comovia seu rebanho até as lágrimas”6 . Além disso, dedicava-se pessoalmente às obras da Matriz. O Baependyano, em edição de 4 de março de 1883, exaltava os trabalhos no frontispício
da Matriz desenhado pelo pároco7 .

Francisco Raposo, maestro, vivia de sua arte musical percorrendo as
distâncias entre Rio e São Paulo e também tocando em sua terra natal, como o fez em 1878, liderando a festividade anual dedicada à Nossa Senhora da Imaculada Conceição, na Capela a ela dedicada.

O religioso Cônego Monte Raso comandava com zelo as atividades da Santa Casa de Misericórdia que f**ava onde hoje é a Escola Montserrat.

Longe de atestar opulência, Baependy era, em 1884, uma cidade simples e pacata, tendo origens bastante antigas e forte tradição religiosa, o cotidiano era assinalado pela religiosidade católica: as festividades litúrgicas marcavam o calendário anual e o toque dos sinos fazia-se presente no dia a dia dos habitantes.
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FONTES E REFERÊNCIAS
1 Enxovias eram os porões das prisões;
2 SEDA, Rita Elisa. Nhá Chica: Mãe dos pobres. 1ªedição. São José dos Campos, SP: Editora ComDeus, 2013.
3 PELÚCIO, José Alberto. Baependi. São Paulo: Gráf**a Paulista, 1942.
4 Ingênuos eram assim chamadas as crianças filhas de escravizados.
5 SEDA, Rita Elisa. Nhá Chica: Mãe dos pobres. 1ª.edição. São José dos Campos, SP: Editora ComDeus, 2013.
6 Idem.
7 PELÚCIO, José Alberto. Templos e crentes. São Paulo: Gráf**a Paulista, 1942.

* Patrícia Silvério Calisto Oliveira é licenciada em História (UEMG, 2015) e em Normal Superior (UNIPAC, 2009), Especialista em Práticas de Letramento e Alfabetização (UFSJ, 2019) e em Arquivo: Patrimônio histórico, artístico e cultural (UNILEYA, 2022). Colaboradora da Estação Baependy - Associação Cultural

No último sábado, 20/04, um grupo de acadêmicos do Curso de Turismo da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG estev...
26/04/2024

No último sábado, 20/04, um grupo de acadêmicos do Curso de Turismo da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG esteve em visita guiada ao Centro Cultural da Estação Baependy - Associação Cultural, onde puderam conhecer aspectos históricos, artísticos e culturais de nossa cidade e região sul-mineira. Visitaram a sala de exposições, assistiram aos vídeos na sala de exibições audiovisuais, conheceram o artesanato local, dentre esse, lindas peças produzidas em fibras e fios pelo grupo de artesãs apoiadas pela Estação Baependy. Foi um momento ímpar!

Participe de nossa oficina de macramê e diversifique sua produção artesanal! Entre em contato conosco pelo Whatsapp  61 ...
26/03/2024

Participe de nossa oficina de macramê e diversifique sua produção artesanal! Entre em contato conosco pelo Whatsapp 61 9 81813100

15 de março de 2024: a Escola Estadual Nossa Senhora de Montserrat, em Baependy, completa 70 anos!E para celebrar esse m...
15/03/2024

15 de março de 2024: a Escola Estadual Nossa Senhora de Montserrat, em Baependy, completa 70 anos!
E para celebrar esse momento, a Estação Baependy - Associação Cultural apresenta o artigo "Os meninos vão à escola: um passeio pelas primeiras décadas da Escola Estadual Nossa Senhora de Montserrat".
Clique no link para acessá-lo e viajar no tempo conosco!
https://drive.google.com/file/d/1l-4v7DYru0BjsN1FY9h92k22NGquiM_F/view?usp=drive_link
Queremos agradecer à comunidade escolar, na pessoa do diretor Juninho Ferreira, por todo apoio dado na pesquisa documental que envolveu a produção deste artigo.
Parabéns à Escola Estadual Nossa Senhora de Montserrat pelos 70 anos!

Oficina de MacramêEstamos com inscrições abertas para Oficina de Macramê com a Professora DalilaAs aulas acontecem às qu...
26/01/2024

Oficina de Macramê

Estamos com inscrições abertas para Oficina de Macramê com a Professora Dalila
As aulas acontecem às quartas, de 18h às 20h30, na sede da Estação Baependy - Associação Cultural, à Rua Maria Olinda do Carmo, 112, bairro Capelinha, em Baependi.
Idade mínima 18 anos.
Interessados devem solicitar inscrição para o email: [email protected]
As vagas são limitadas!

Recebemos, com alegria, o simpático grupo do Rio de Janeiro que esteve em visita guiada ao Centro Cultural  Estação Baep...
26/01/2024

Recebemos, com alegria, o simpático grupo do Rio de Janeiro que esteve em visita guiada ao Centro Cultural Estação Baependy, passeando por nossa sala de exposição "Presépios do Mundo", nossas exibições audiovisuais e nossa mostra de artesanato local, que prestigia os talentos de Baependi. Ao final, um delicioso café mineiro!😋
O Centro Cultural recebe visitas de grupos mediante agendamento.
Contate-nos: [email protected]

22/01/2024

A Associação Estação Baependy nasceu da ideia de trazer para a cidade opções de cultura e projetos que envolvam o seu fortalecimento. Nos últimos meses, a Associação vem desenvolvendo ações para a implantação do Centro Cultural Estação Baependy – um espaço voltado para exposições culturais, oficinas, mostras do artesanato local e exibições audiovisuais, todas essas voltadas para preservar, divulgar e fortalecer as expressões e manifestações culturais de Baependi e região sul-mineira.
O Centro Cultural recebe grupos visitantes mediante agendamento.

PROJETO DEFENSORES DA SERRA - Etapa 1Desde outubro/2022, em parceria com o Ministério Público de Minas Gerais, comarca d...
10/03/2023

PROJETO DEFENSORES DA SERRA - Etapa 1

Desde outubro/2022, em parceria com o Ministério Público de Minas Gerais, comarca de São Lourenço-MG, estamos executando o "Projeto Defensores da Serra - aprimoramento e aparelhamento das ações de preservação, proteção e recuperação do Parque Estadual da Serra do Papagaio-MG – Etapa 1", que visa apoiar a gerência regional do referido parque nas atividades diárias de conservação e proteção desta área de proteção ambiental tão importante, cuja extensão terriorial, majoritariamente, encontra-se no município de Baependi.
Dessa forma, através de recurso direcionado pela 4ª Promotoria de Justiça da Comarca de São Lourenço, realizamos a aquisição e a entrega, a título de doação, de materiais e equipamentos que muito tem colaborado para a realização das atividades do parque, a saber:

01 Duplexador mini DVM-6C com 6 cavidades 160/174mhz e kit de 24 conectores para manutenção e funcionamento de aparelho de rádio-comunicador do PESP;
01 Lavadora de Alta Pressão 1200W, 1500PSI, 127V;
01 SERRA TICO TICO ORBITAL 650W;
04 Lâminas para roçadeira, 35cm, 2,7mm;
01 carrinho de mão metálico, pneu de câmara;
01 cavadeira de metal;
Pregos e parafusos.

Essa parceira tem sido fundamental para aprimorar as ações cotidianas da equipe do PESP, além de contribuir para que a Associação Estação Baependy dê continuidade às ações de apoio e desenvolvimento regional nas áreas do meio-ambiente cultura local.
Agradecemos imensamente ao Ministério Público do Estado de Minas Gerais, na pessoa do digníssimo promotor de justiça Dr. Leandro Pannain Rezende e equipe, pela confiança e parceria!

Durante o ano de 2022, através de parceria com a Escola do Legislativo "Ana Lúcia Balbi Leite", a Associação Estação Bae...
02/03/2023

Durante o ano de 2022, através de parceria com a Escola do Legislativo "Ana Lúcia Balbi Leite", a Associação Estação Baependy promoveu uma Oficina de Redação para alunos do ensino fundamental e médio, com foco de preparação para provas de redação, dentre elas o ENEM. Uma de nossas participantes, a jovem Larissa, no final do curso recebeu, como prêmio por seu empenho e comprometimento, uma bicicleta doada pelo vereador Xandinho.
Larissa foi aluna da Escola Estadual Nossa Senhora do Montserrat, em Baependi. Fez o ENEM 2022 e, com a ajuda da Oficina proporcionada pela Estação Baependy, conquistou 800 pontos na prova de redação!!! Parabéns, Larissa! Que sua trajetória seja do tamanho de sua garra! Sucesso!!!

22/11/2022

Parabéns a todos os músicos de Baependy!

Artigo |  A festa de aclamação a Dom Pedro na Vila de Baependy, por ocasião da Proclamação da Independência, em 1822 Por...
07/09/2022

Artigo | A festa de aclamação a Dom Pedro na Vila de Baependy, por ocasião da Proclamação da Independência, em 1822

Por Patrícia Silvério Calisto Oliveira*


Com a proclamação da Independência era necessário construir o novo país. Para isso, “a prosperidade e a civilização se aliavam a outros valores, como o patriotismo e a unidade, elementos essenciais na formação da nação recém criada” (CHAMON, 2002, p. 101). Assim, a partir desse momento, a elite política buscava, através das festas cívicas, disseminar o sentimento de amor pela pátria e o apego ao novo governo.
Na vila de Santa Maria de Baependy a festa de aclamação a D. Pedro como Imperador do Brasil foi marcada para o dia 12 de outubro. Neste dia, a vila saiu de sua rotina, agitou-se. Para Chamon, no dia de festa, “a felicidade e a alegria se expandiam, as ruas eram tomadas pelos habitantes, a vida pública era priorizada em detrimento da vida e dos afazeres domésticos” (2002, p. 61). Nesses dias festivos as roupas e os gestos eram ostentados e a alegria era visível entre as pessoas (SCHWARCZ, 2001, p. 612).
A população baependiana ajuntou-se no Paço da Câmara, onde estavam reunidos o Ouvidor interino da Comarca do Rio das Mortes e outras autoridades. No interior da casa da Câmara, a reunião foi iniciada e, estando todos de acordo, os presentes aclamaram unanimemente D. Pedro de Alcântara como o primeiro Imperador Constitucional do Brasil e declararam a independência política da nova nação. Juraram ainda dar a vida pela pátria. O ato foi lavrado em ata.
Depois dessa reunião, o ouvidor da Comarca chegou à janela do prédio da câmara e bradou em voz alta vivas à religião, à Independência, à Assembleia Constituinte, ao Imperador e à sua Dinastia. Os vivas foram repetidos por mais duas vezes e correspondidos muitas vezes pelas pessoas que se encontravam no largo da Câmara. Esse parece ter sido um momento de muito entusiasmo. Aqui que f**a mais evidente aos presentes o motivo do festejo. Durante os vivas, a população toma maior consciência do que está sendo festejado. E é nesse momento que espera-se que as pessoas adotem os ideais propostos pela festa. Nesse caso, a população baependiana devia aderir a estes ideais.
Depois dos numerosos vivas, a população e as autoridades seguiram acompanhadas pela tropa até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Montserrat. Quando o cortejo iniciou o trajeto, os fogos de artifício e as girândolas iluminaram o céu. O som dos fogos se misturou ao som dos “harmoniosos instrumentos” (R.A.P.M., 1899, p. 235) que abrilhantavam ainda mais os festejos. Del Priore (2000, p. 38) afirma que a queima de fogos durante os festejos remonta ao século XVII, tendo esta tradição vindo de Portugal. A autora ainda ressalta que os fogos constituíam-se ferramentas caras, mas ef**azes na demonstração e representação do poder.
Na Igreja foi celebrada, pelo padre Manoel Pereira de Souza, uma missa solene. O sacerdote realizou durante a cerimônia religiosa um discurso sobre o tema da festa: a Independência e aclamação de D. Pedro como Imperador. José Murilo de Carvalho analisa que ao final do século XVIII e início do século XIX, muitos clérigos participavam ativamente da política e ressalta que a posição do clero em relação ao Estado era bem singular, uma vez que, “por efeito da união Igreja-Estado, o padre era um funcionário público”. Depois da missa, todos assistiram ao Te Deum.
Então as pessoas voltaram para o largo do paço acompanhadas pela tropa. Novamente são repetidos os vivas à Religião; à Assembleia Geral Constituinte do Brasil; ao Senhor Dom Pedro de Alcântara, Primeiro Imperador do Brasil, à Imperatriz do Brasil; à Dinastia da Casa de Bragança e ao Povo Constitucional. Ao que todos “correspondiam com transportes de entusiasmo” (R.A.P.M., 1899, p. 236). Nesse momento de euforia, as pessoas começaram a jogar chapéus e lenços para cima, num ato de grande animação, “manifestando assim o mais excessivo júbilo” (R.A.P.M., 1899, p. 236).
Del Priore ressalta o fato de que “além de misturar estilos, sons e partituras”, as festas “misturavam também os corpos” (2002, p. 19), uma vez que o povo ocupava o mesmo espaço das autoridades civis e religiosas e se uniam também no mesmo ato de regozijo.
Porém, o fato de todos dividirem o mesmo espaço não implica a ausência ou a neutralização da diferenciação social entre os membros daquela sociedade. Ao contrário, a festa efetivamente possibilitava ao grupo social o confronto de prestígio e rivalidades, a exaltação de posições e valores, de privilégios e poderes. Tudo é reforçado pela ostentação do luxo e distribuição de larguezas. O indivíduo ou o grupo de família afirmavam com a sua participação nas festas públicas seu lugar na cidade e na sociedade política. (DEL PRIORE, 2000, p. 37)
Em seguida, as autoridades presentes recolheram-se à casa da Câmara e, mais uma vez, o Ouvidor chegou à janela do prédio e proferiu os inúmeros vivas já bradados anteriormente. Os presentes se colocaram novamente a repeti-los.
Nesse momento, a tropa disparou três “descargas de fogo de alegria” (R.A.P.M., 1899, p. 236) encerrando os festejos nos quais se declarava solenemente a Independência Política do Brasil na vila de Santa Maria de Baependy. É importante analisar a presença da tropa durante todos os momentos da festa. De acordo com Souza, nas primeiras décadas do século XIX, cada vila possuía “uma série de tropas justapostas em suas funções e com variados comandos, uns nomeados pela coroa, outros indicados pela Câmara” (1998, p. 14). A autora acredita que essas tropas desempenharam papel importante no processo de construção da autonomia brasileira, uma vez que “participavam na praça pública do apoio ao príncipe, marchavam sobre as vilas hesitantes e as adversárias, uniram-se em torno das elites, dos ricos proprietários, solidarizando-se com o novo estatuto do Brasil, colaborando para a sua instauração” (SOUZA, 1998, p. 15).
As tropas postadas na praça durante a festa aludiam à ideia de defesa, de luta, uma vez os brasileiros viam-se ameaçados pelas Cortes portuguesas. Para Souza, à própria “figura de D. Pedro correspondia uma noção de um povo em armas, sob o molde das tropas e milícias” (SOUZA, 1998, p. 17).
Chamon (2002, p. 31) acredita que as festas cívicas eram ocasiões onde se buscava criar laços entre o povo e o poder, estimulando uma identif**ação entre a população e as propostas políticas do governo. Na festa de aclamação a D. Pedro, essa intenção parece bem clara, uma vez que se desejava popularizar a figura do príncipe, estreitando a ligação entre sua imagem e os habitantes da vila. Podemos dizer, então, que essa festa foi realizada para conquistar a adesão da sociedade baependiana à Independência e ao príncipe, mas também para colocar a Vila de Santa Maria de Baependy entre as vilas que, com elevado sentimento público, apoiaram a Independência e a investidura de D. Pedro como imperador.

_______________________________
* Graduada em História (UEMG) e em Normal Superior (UNIPAC). Especialista em Práticas de Letramento e Alfabetização (UFSJ). Pós-graduanda em Arquivo: patrimônio histórico, artístico e cultural. Colaboradora da Associação Cultural Estação Baependy.

REFERÊNCIAS

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de sombras: a política imperial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

CHAMON, Carla S. Festejos Imperiais: Festas Cívicas em Minas Gerais, 1815-1845. Dissertação de

Mestrado, Departamento de História, Belo Horizonte: FAFICHUFMG, 1996.

DEL PRIORE, Mary Lucy. Festas e Utopias no Brasil colonial. São Pulo: Brasiliense, 2000.

Esboços Chorográphicos: Baependy (1692 – 1822). In: Revista do Arquivo Público Mineiro, BeloHorizonte, v.4, 1899.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Viajantes em meio ao império das festas. In: JANCSÓ, István; KANTOR, Iris. Festa: Cultura e Sociabilidade na América Portuguesa, vol.II. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2001.

SOUZA, Iara Lis Carvalho. A adesão das Câmaras e a figura do Imperador. In: Revista Brasileira de História vol.18 nº36. São Paulo, 1998.

330 ANOS DE HISTÓRIA: A OCUPAÇÃO PORTUGUESA EM BAEPENDYPor Patrícia Silvério Calisto Oliveira[1] O povoado de Baependy o...
08/08/2022

330 ANOS DE HISTÓRIA: A OCUPAÇÃO PORTUGUESA EM BAEPENDY

Por Patrícia Silvério Calisto Oliveira[1]

O povoado de Baependy originou-se em fins do século XVII, às margens do rio já assim denominado, à beira do chamado Caminho Velho. Este caminho era, então, a principal rota de ligação entre São Paulo e as regiões de São João del-Rei e Vila Rica e constituiu-se como um dos principais eixos no processo de urbanização na região centro-sul. [2]
Nesse período, o nome de Baependy já era muito conhecido pelos bandeirantes e sertanistas. A povoação é constantemente citada no início do século XVIII. [3]
As primeiras povoações fundadas no interior de Minas Gerais eram chamadas de “arraial” ou “rancho”. Na colônia, o termo “rancho” podia designar um galpão rústico que era utilizado para abrigar, durante as paradas, as mercadorias e os viajantes. Era como uma estalagem. Já o termo arraial era utilizado para denominar pousos e roças que os bandeirantes criavam ao longo do caminho para garantir sua sobrevivência. [4]
Este parece ter sido o caso de Baependy, uma vez que funcionava como um pouso, uma estalagem para os exploradores que rumavam às regiões nas quais o ouro era encontrado em abundância. Esse constante tráfego movimentou o cotidiano dos poucos habitantes desse lugarejo e fez com que ele fosse considerado “o povoado predestinado a socorrer os viajantes das minas" [5].
A origem de Baependi relaciona-se, portanto, ao processo de ocupação e exploração das outras regiões mineiras onde o ouro era encontrado em grande quantidade, a exemplo de muitas outras localidades desse período.
Considerado o patrono de Baependy, Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, teria transposto a Mantiqueira graças à existência de ouro nessa região. Em 1718 foi nomeado como Provedor dos quintos reais do Caminho Velho, graças ao trabalho prestado na invasão francesa.[6]
Próximo ao rio Baependi, Tomé Rodrigues construiu sua casa, onde habitou com a esposa Maria do Leme Prado e seus filhos. O lugar, denominado Engenho, recebeu uma capela erguida sob o orago de Nossa Senhora de Montserrat. Em 1723, este ilustre morador requereu a presença de um padre em sua capela. Na verdade, ele solicitou a permanência do frei Baltasar do Monte Carmelo na então “freguesia de Nossa Senhora do Montserrat de Baependy”, uma vez que o mesmo já prestava assistência na referida igreja.
A historiadora Maria Cristina Neves de Azevedo aponta a existência de uma “sociedade que contava com a presença de militares de diferentes patentes, fazendeiros, cativos africanos, administrados e ‘carijós’ que acorreram à capela edif**ada pelo capitão-mor para batizar seus filhos”.
Como sabemos, nos domínios portugueses, a instância administrativa sempre estava ligada à instância eclesiástica. Dessa maneira, a existência dessa primitiva capela, com pessoas de todas as origens morando ao seu redor pode ser considerado o primitivo embrião da sociedade baependiana. Sociedade esta que, em 1754, recebeu pelas mãos dos descendentes de Tomé Rodrigues o terreno para a construção do arraial livre e franco. Em 1814 teve criada sua vila e, em 02 de maio de 1856, recebeu o título de cidade, mais de 300 depois de sua origem.
______________________________
[1] Graduada em História pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG) e em Normal Superior pela Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC). Especialista em Alfabetização e Letramento. Pós-graduanda em Arquivo: Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Colaboradora da Associação Cultural Estação Baependy.

[2] ROMEIRO, Adriana; BOTELHO, Ângela Viana. Dicionário Histórico das Minas Gerais. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.
[3] BERNARDES, Fabiano José Viotti. Levantamento de Fontes Primárias do Município de Baependi. In: Anais do VII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História - ampuh. Belo Horizonte, 1973.
[4] FONSECA, Claudia Damasceno. Arraiais e Vilas del Rei: Espaço e poder nas minas setecentistas. Tradução de Maria Juliana Gambogi. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2011.
[5] PELÚCIO, José Alberto. Baependi. São Paulo: Gráf**a Paulista, 1942.
[6] AZEVEDO, Maria Cristina Neves de. Do necessário para a comodidade dos povos: urbanização e civilidade no território sul-mineiro – Baependi (1754-1856). 374f. Tese (Doutorado em História) – UFOP. Ouro Preto, 2020.

REFERÊNCIA DA FOTO: Detalhe do Mappa da capitania de S. Paulo, e seu sertão em que devem os descobertos, que lhe forão tomados para Minas Geraes…, século XVIII, elaborado por Francisco Tosi Columbina. Os caminhos encontram-se tracejados. Fonte: Fundação Biblioteca Nacional. Disponível em: < http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_cartografia/
cart1033415.jpg >. Acesso em: 26/06/2015.

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