29/09/2017
De Portas Abertas ( à seleção)
Não é difícil encontrar entrevistas com estrangeiros que visitaram o Brasil em que seja feita a pergunta “Qual a melhor coisa do Brasil? ”. É menos raro ainda que a resposta para essa pergunta seja: “O povo acolhedor e gentil.”. Curiosamente, mesmo com essa tão famosa cordialidade brasileira, muitos casos de xenofobia continuam ocorrendo, como a história de Mohamed Ali, hostilizado, ameaçado e constrangido apenas por estar trabalhando dignamente em uma rua brasileira.
Como é possível ser cordial e acolhedor ao mesmo tempo em que se é preconceituoso e discriminador? Em que momento que as calorosas boas vindas foram substituídas pelas exclamações agressivas: “Sai do meu país”? O brasileiro se interessa apenas naquilo que lhe é vendido como certo, não ousa questionar nem checar informações. Canso de ligar a televisão e ver sempre o “Exemplo estadunidense e europeu” a ser seguido pelos outros países, a típica ideia do gr**go engraçado de olhos azuis que movimenta a economia. Por outro lado, o Oriente Médio é mostrado como o vilão da vida real, o berço do terrorismo, uma terra corrupta. Ignora-se as famílias residentes ou que tem de deixar suas amadas casas à procura da sobrevivência e acolhimento.
A gentileza brasileira é seletiva, procura o imigrante que mais se encaixa no padrão europeu, naquele que aparenta ter melhor condição financeira, afinal, eles compram nossos produtos, e devemos nos sentir honrados por ter escolhido nosso país para gastar seu tão desenvolvido dinheiro. Agora, quando se trata de um refugiado, que deseja apenas sustentar sua família com seu próprio negócio ou realizando trabalhos que o próprio brasileiro se nega a fazer, ou então um turista, proveniente de países do Oriente Médio, a boa vontade do meu querido povo brasileiro aparenta murchar, dando lugar ao discurso de ódio e à ignorância, ao medo irracional refletido na violência e na generalização xenofóbica do indivíduo.
Nestes casos, o brasileiro parece desejar se tornar o dono do país, podendo decidir quem f**a ou sai baseado no nome ou na nacionalidade do outro. Deixa de enxergar o ser humano que se encontra logo em frente, e passa a ver apenas o estereótipo de terrorista, de oportunista, de ladrão de empregos.
Me ponho no lugar daqueles que deixam seu lar na luta pela vida, por acaso não passa pela mente dos xenofóbicos que, caso tivessem escolha, os refugiados prefeririam jamais ter de deixar sua nação, podendo viver com segurança e dignidade no lugar que amam? A situação de ver o próprio país se tornar uma zona de guerra é desesperadora, pior ainda é criar esperanças de reconstruir sua vida em outro local e acabar sendo hostilizado por aqueles que antes aparentavam oferecer conforto.
Proposta de Redação: Crônica Jornalística
Autor: Lucas Soares Freitas, membro correspondente da AJULE, cadeira 06