23/04/2026
* a que nas *
Sou obrigado a intervir no debate que praticamente nunca cessou desde o fim da guerra. Em particular desde o período posterior às eleições de 2008, e o fim do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional.
Desde então, a narrativa tem sido a criação de uma opinião imposta à maioria da população, segundo a qual a Reconciliação é uma lógica unilateral, cuja responsabilidade recai unicamente sobre o governo Angolano.
O significado da Reconciliação nacional para o caso Angolano, diferente de qualquer outro lugar do mundo, é que um lado (o Governo, e a população que viveu sob o seu regime desde 1975) suporta ou é culpado de todos os aspetos negativos do período pós-independência até o fim definitivo da guerra 2002, e a situação daí resultante de 2009 até ao presente.
Do outro lado, a UNITA é a principal vítima de sempre, desde a luta anticolonial até aos dias de hoje. É um movimento independentista que, com o seu líder, tem sofrido maus tratos sob regimes coloniais e independentistas, enquanto a sua trajectória tem sido inteiramente a nobre causa da justiça social e da defesa dos direitos humanos.
O que temos tido desde 2008 é uma estratégia revisionista da história, mas acentuada no negacionismo, dirigida principalmente aos jovens e às massas ingênuas ignorantes, e a muitos daqueles que se recusam a estudar a história da nossa nação e do mundo em geral, em particular a história política que molda mundo nos últimos 80 anos.
Em primeiro lugar, o epicentro da narrativa era mudar o raciocínio e a realidade sobre o fim da guerra e a conquista da paz, e seus merecedores protagonistas, nacionais e estrangeiros, que se sacrificaram para que ela se tornasse uma realidade após inúmeras tentativas desastrosas desde 1988.
Assim, a estratégia passou para inverter a realidade de que a guerra em Angola foi ganha através da derrota completa de uma persistente rebelião armada, e apresentando essa derrota como uma vitória gloriosa e uma vindicação para aqueles que durante anos almejaram a paz e a democracia.
A derrota em batalha de um guerreiro que muitas vezes levava o seu povo a crer que era invencível, até mesmo imortal e prova de bala, e a forma vergonhosa como encontrou o seu fim, precisavam de ser retratadas como a gloriosa forma pela qual os grandes guerreiros costumam tombar nas frentes da batalha.
Assim, tornou-se proibido narrar como a guerra terminou e como JMS encontrou o seu fim. A justificação era que mencionar a realidade que mostrasse qualquer aspecto de como uma organização outrora poderosa, provavelmente até mais poderosa do que muitos países Africanos, foi levada a uma derrota terrivelmente humilhante, equivalia à rejeição da reconciliação nacional entre Angolanos.
JMS teve de ser considerado um herói e o salvador de Angola acima de qualquer outro líder dos três movimentos independentistas.
Por outro, de alguma forma, o gesto nobre de Zedú, ao ordenar um cessar-fogo imediato e salvar todos os dirigentes da UNITA que ainda restavam vivos, foi minimizado e considerado de valor secundário para a nação que nascia das cinzas da guerra que terminou em 2002.
A história do mundo e os paralelismos com a nossa realidade sofreram, desde então, uma terrível distorção. Pior foi o facto de que vivemos num país onde a procura de conhecimento é muito limitada. A fofoca, intrigas, mentiras têm melhor espaço na nossa convivência quotidiana. Por isso a geração jovem e muitas pessoas ignorantes são alimentadas com uma versão falsa sobre as guerras no Mundo e de como elas terminaram.
Foi distorcido a verdade sobre o fim da nossa guerra e os respectivos merecidos dos heróis mortos ou vivos que deram tanto para que isso pudesse acontecer. Quando, não há guerras que tenham terminado com a derrota completa do adversário, com centenas de pessoas a morrer a cada hora, onde vencedor acolhê-las de braços abertos, chegando mesmo a implementar um programa de resgate urgente para salvar vidas, enviando os sobreviventes para tratamento de qualidade em vários hospitais de excelência no país e no estrangeiro.
Além disso, simulam-se negociações de paz para cobrir a vergonha e humilhação, onde os líderes capturados até são transportados com dignidade para diversas rondas de conversações, com o objetivo de inspirar a população a aceitar que a paz chegou para sempre, e que a reconciliação nacional era a nova ferramenta fundamental para a vida quotidiana.
E não esqueçamos que se trata de um país Africano que parecia destinado a viver pelo menos 50 anos de conflito contínuo e centenas de mortes diárias da população. Portanto, José Eduardo dos Santos é um caso único no mundo. Se os papéis se invertessem, JMS teria eliminado não só Zedú e a sua família, mas quase todos os dirigentes importantes do MPLA e das respectivas famílias, desde os níveis locais até aos mais altos escalões. Além disso, sendo o menino bonito das potências ocidentais, teria imposto o seu domínio sem contestação, tanto interna como externamente, e com o apoio de muitas organizações internacionais poderosas que influenciam o mundo.
O que foi imposto à sociedade Angolana é a negação da história e uma lavagem cerebral que hoje infelizmente, conta com a colaboração de muitos indivíduos e grupos que se fazem de sábios, analistas políticos e intelectuais, ou mesmo vozes do povo.
Por um lado, existe uma falsa analogia de reconciliação à qual a maioria de nós deve aderir. Por outro lado, JMS e os seus discípulos têm liberdade para fabricar a história, expurgando todos os aspetos da nossa história nacional a seu favor, e ninguém pode contrariar. Eles são os especiais que têm carta branca para fazer e desfazer tudo.
É assim que todos os anos convivemos com a realização de grandes eventos, como seminários e palestras sobre JMS e os ditos seus grandes feitos, como humanista, pai da paz, salvador da pátria e até mesmo líder mundial.
Aparentemente, JMS é a única pessoa especial no mundo inteiro, que ninguém pode questionar. Quando é pessoal singular que em Angola, depois da independência, deixou milhares de vítimas que hoje já não estão vivas por causa das suas acções pessoais. Até mesmo nos seu próprio partido, deixou um rasto de sangue, órfãos e viúvas. Liderou uma purga pessoal de mulheres e crianças, que incluiu até as suas esposas e amantes que lhe deram vários filhos ainda vivos hoje. Violou as esposas dos seus colegas líderes, e as azaradas raparigas cujos pais assistiram o pesadelo pelo que passaram totalmente impotentes, com medo pelas suas vidas. Em tais situações, os pais das vítimas até temiam tossir ou espirrar, caso fosse interpretado como um acto grosseiro de desafio.
O homem, assassinou as esposas dos seus subordinados sem sequer lhes informar previamente da sua decisão.
O pior é que, ainda hoje, os seus discípulos dão entrevistas na rádio e noutros meios de comunicação, onde justificam as suas acções e até o apoiam. Ouvi um deles, hoje considerado a autoridade moral do partido, declarar na rádio que não se arrependia de ter participado na queima pública de crianças, pois considerava as crianças de 4 ou 5 anos bruxas e inimigas da revolução. Até acrescentou que a sua mãe também foi queimada viva juntamente com as mulheres e crianças que foram queimadas publicamente. E que a culpa era dela.
Somente em Angola que as pessoas são levadas a acreditar que alguém que cria numa parcela de terra em Angola como país livre e democrática, onde pratica acções que há de pior nonmundo em termos de comportamento humano, supostamente, se ele governasse, seria o melhor democrata e defensor dos direitos humanos em África. Quanta insanidade!
Como escudo e forma de fazer calar as novas das pessoas, introduziram a palavra *diabolização*, como escudo contra a narração das verdades do seu desviou mental e crimes cometidos.
Durante a guerra civil, tanto a UNITA como o governo do MPLA utilizaram propaganda hostil como arma útil. A propaganda era uma ferramenta da Guerra Fria, que ganhou destaque durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria. Hoje, foi substituída por notícias falsas e difamações na internet e nas redes sociais. A estratégia foi sempre a de fazer do inimigo o actor ou culpado principal no conflito armado, e rotulado como inimigo da povo. Portanto , o governo do MPLA tinha a RNA, e do outro lado, a UNITA tinha a VORGAN (A Voz do Galo Negro). Além disso, existia também a imprensa escrita de ambos os lados. Portanto, o que hoje se designa por *diabolização* era algo que ambos os lados utilizavam para destruir o outro.
Contudo, hoje, com a estratégia do revisionismo e negacionismo, a narrativa dos factos históricos, em particular das ações de JMS, incluindo as da UNITA, faz com que qualquer um que ouse narrar a história dizendo a verdade, seja alvo de ataques, ameaças e insultos, sob a alegação de que se trata da diabolização do Messias e de seu partido. Confundindo assim as mentes fracas para dar a impressão de que tudo são mentiras.
Nós últimos anos, muito se tem escrito e dito sobre o MPLA e a FNLA desde os anos 60 até ao fim da guerra. No entanto, não podemos escrever verdades nem quaisquer críticas a JMS e à UNITA. Isto é imediatamente rotulado como demonização/ou seja diabolização.
Existe até uma narrativa doentia que afirma que, pelo do facto do JMS ter deixado familiares e descendentes, nada do que fez deve ser mencionado ou criticado, sendo apenas permitidos elogios. Daí que a profusão de elogios, seminários, palestras, programas de TV e anúncios no YouTube seja considerada legítima, e as vítimas de JMS e seus descendentes devem simplesmente engolir tudo e calar-se, pois qualquer dissidência desta norma é vista como traição e uma tentativa contra a reconciliação nacional, estabilidade e progresso de Angola.
A maioria da nova geração obtém as suas notícias e informações históricas das redes sociais (podcasts, chats, YouTube, etc.). Quase ninguém, ou uma minoria ínfima, utiliza aplicações e ferramentas de verificação. Consequentemente, quando questionados sobre algo, a resposta é que viram nas redes sociais, nos Facebook ou no WhatsApp.
Em Angola, estas plataformas são dominadas por aqueles que propagam a narrativa do revisionismo e do negacionismo. Existe Orchestras de ódio, difamações, intimidações e fábricas de mentiras, que basta alguém falar algumas verdades, em uns segundos, em sintonia, começa o show dos mesmos.
O MPLA simplesmente não consegue acompanhar o ritmo. Além disso, encontra-se em grande desvantagem devido aos fracassos que levaram à má gestão da economia, a fome, miséria, e políticas erradas. E que o MPLA até sofre sabotagem interna pelos que preferem ver o povo a sofrer, para tirarem lucros da sua desgraça.
Numa nação sem mecanismos de controlo sobre a difusão de notícias nas redes sociais, o monopólio está nas mãos de quem divulga notícias sensacionalistas, escândalos e difamação.
É que o MPLA agora sofrem com o ditado de que, "a mão que deu alimento à cobra moribunda, no futuro a mesma voltou para a morder.
À medida que o mundo muda mais uma vez, nós, como país, estamos a entrar em águas perigosas, a menos que pessoas de boa vontade e moderadas intervenham a tempo.
Na própria UNITA, descobriu-se que o nome JMS é um bom negócio para obter vantagens. Tornou-se oportunista afirmar-se discípulo apenas para obter benefícios. Portanto, ultimamente lá também está a ocorrer uma mudança interna. Uns tantos esperançoso por muitos anos que a parte positiva que fez com que adirissemm a causa, estão a desistir. O país nem sabe que a maioria dos bons quadros da UNITA, há muito saíram depois de verem que os que tanto fizeram para destruir o bem que lá entrou em 1975/76 em diante, são os mesmos que nos tempo da paz, ficaram outra vez com a máquina do destino do partido. Muitos dos bons quadros estão nos aparelho do estado como funcionários públicos, longe de qualquer activismo político.
Portanto, hoje vivemos uma realidade em que, dentro da UNITA e do MPLA, estão a acontecer coisas nunca vistos. As divisões e as alianças transbordaram para as ruas e para os olhos do público, para que muitos vejam.
Eu, por exemplo, sempre disse, depois de 1991, que Angola, na ausência da FNLA, precisava de uma nova força política. Uma que se pudesse manter confortavelmente no meio como equilíbrio do espaço político, enquanto se mantém a longa rivalidade entre o MPLA e a UNITA, até que um dia possa ser relegada para o passado.
Assim, 2027 é a oportunidade para Angola acertar e pôr fim ao que parece ser uma situação que mantém a nação refém desde 1975.
Às pessoas que agora fizeram com que o absentismo sejam mais de 51% dos eleitores actualizados, não podem continuar nos muros assistindo a desgraça e sofrimento que na prática afecta a inteira nação.
O triste é verificar que indivíduos políticos que contribuíram terrivelmente para a má situação em que vivemos criaram herdeiros e clones que se estão a tornar como eles, e facilmente manipulam a opinião pública e os mais vulneráveis.
Portanto, na terra da fome, muitas pessoas aceitam a mão que lhes dá um pouco de comida, nem que seja por algumas horas. Assim está a maioria da população, que faz com que haja seguidores de fakenews, falacias, difamações e distorção da história em geral.
Eu não sigo modas.
O meu percurso é longo e, quando se trata dos princípios básicos que são a base da maioria das boas sociedades, nunca fui abalado ou derrotado.
Por me ter mantido firme mesmo quando a maioria dos poderosos se acobardou, e se virou contra nós, não posso ser populista.
Por ser totalmente contra o feminicídio e os maus tratos à crianças, tenho inimigos, mas é próprio. Não me adapto à história, mas é a história que é obrigada a adaptar-se a mim.
A minha opinião é apenas uma entre muitas, e são as muitas opiniões que moldam a sociedade. Mas nunca sucumbirei a ideologias e narrativas falsas, sejam quais forem os extremistas.
2027 já está começar. É para os fortes. Mais que tudo, hoje o mundo mudou, país que não entende geopolítica, e fazer políticas adequadas para sua própria grandeza e sustentabilidade, não vai conseguir o progresso merecido.
Até que fim até às superpotências dos últimos 80 anos, estão em crises sem saber o que será do futuro que vem aí.
Se o país é para todos, então, ninguém nos pode manter reféns. Mas também, anarquia e libertinagem, não criar países de sucesso.