Introduziu a dança inclusiva em Angola, integrando bailarinos com e sem deficiência motora. Constituída em 1991 nas então estruturas do Ministério da Cultura, e existindo durante dois anos sob a designação inicial de Conjunto Experimental de Dança (CED), a COMPANHIA DE DANÇA CONTEMPORÂNEA DE ANGOLA faz a sua estreia no Teatro Avenida, em Luanda, no dia 27 de Dezembro desse ano, com a obra A Propós
ito de Lweji, baseada no mito da fundação do Império Lunda e em elementos da cultura Cokwe. Fundada e dirigida pela bailarina e coreógrafa Ana Clara Guerra Marques, esta companhia criou uma linha de trabalho que, dispensando as narrativas de estruturação convencional, preferencia propostas que confrontem o público com as suas próprias histórias, aspectos do seu quotidiano, das suas realidades sociais, da sua condição de cidadãos de universos que se cruzam numa época em que as barreiras geográficas e culturais são superadas pelos recursos que nos disponibilizam as novas tecnologias. Estas mesmas que, conjuntamente com outras linguagens, passaram a integrar os discursos artístico e estético da CDC Angola, onde o corpo e o movimento constituem o elemento catalisador. A partir de estudos de investigação efectuados em várias regiões de Angola foram propostos diferentes vocabulários e novas linguagens, no âmbito da pesquisa e experimentação, apresentando outras possibilidades para a revitalização da cultura de raiz tradicional de que são produto as peças A Propósito de Lweji (1991), Uma frase qualquer… e outras (frases) (1997), Peças para uma sombra iniciada e outros rituais mais ou menos (2009) e Paisagens Propícias (2012/13), Mpemba Nyi Mukundu (2014) e (Des)construção (2017). Por outro lado, com Corpusnágua (1992); Solidão (1992); 1 Morto & os Vivos (1992), 5 Estátuas para Masongi (1993) Introversão versus Extroversão (1995) ou Ogros… da Oratura… e do Fantástico (2008), a CDC Angola desloca a dança para espaços não convencionais, introduzindo o público a diferentes formas e conceitos de espectáculo. Para estas criações faz parcerias com alguns dos mais importantes nomes da literatura e das artes plásticas angolanas, entre os quais Manuel Rui Monteiro, Artur Pestana Pepetela, Frederico Ningi, Carlos Ferreira, Jorge Gumbe, Mário Tendinha, Francisco Van-Dúnem Van, Masongi Afonso, Zan de Andrade e António Ole. A utilização da dança como meio de intervenção e crítica social, expondo o Homem enquanto cidadão do mundo e protagonista da cena social angolana, é a marca desta companhia, como revelado nas peças Mea Culpa (1992); Imagem & Movimento (1993), Palmas, por Favor! (1994); Neste País... (1995), Agora não dá! ‘Tou a Bumbar... (1998), Os Quadros do Verso Vetusto (1999), O Homem que chorava sumo de tomates (2011), Solos para um Dó Maior (2014), Ceci n'est pas une porte (2016), O monstro está em cena (2018) e Isto é uma Mulher? (2022)
Responsável pela ruptura estética e formal da dança angolana e lutando desde a sua criação contra os mais diversos obstáculos decorrentes da sua existência num terreno conservador, fortemente cunhado pela quase ausência de um movimento de criação de autor ao nível da dança e praticamente absorvido pelas danças populares e recreativas urbanas, a CDC Angola resiste numa condição de sobrevivência sem qualquer tipo de apoio institucional. Todavia, o labor a que se dedicou para lavrar esta terra e semear o novo não deixa de ser, apesar de todas as adversidades, um privilégio e um desafio que a História lhe propõe, transformando-se numa responsabilidade à qual não pode renunciar. Consciente da importância da sua missão inovadora, esta companhia não desiste de apontar novos olhares sobre a dança, tornando-se em 2009 uma companhia de Dança Inclusiva pela integração de bailarinos portadores de deficiência física. Divulgar, surpreender, ensinar, provocar, levar a arte à comunidade e contribuir para a educação estética do público, trazendo-o à apreciação das artes são os grandes objectivos desta companhia angolana, para o que complementa a sua acção artística com a realização de workshops, seminários, palestras, encontros, aulas abertas e outros programas de educação e divulgação da dança. A Companhia de Dança Contemporânea de Angola, uma das primeiras do género em África (a quarta a ser fundada neste continente) é hoje uma companhia profissional independente e a única em Angola, onde marca a diferença pelo investimento intelectual, pela originalidade das suas criações, pela qualidade técnica e artística do seu trabalho, pelo rigor dos seus espectáculos que apresenta regularmente em regime de Temporadas, prática exclusiva em Angola. Constituída por bailarinos angolanos por si formados, a CDC Angola procura, cada vez mais, uma validação no exterior, onde o seu trabalho é reconhecido e concorre em pé de igualdade com as demais companhias de dança profissionais. Nas oportunidades que lhe foram dadas para representar Angola, esta companhia orgulha-se de ter sido calorosamente aplaudida como a embaixadora da dança contemporânea angolana tendo, em 2012, sido considerada pela crítica especializada (de dança) a segunda melhor companhia a apresentar-se, nesse ano, em Portugal. Para além das digressões, faz parte da sua estratégia de internacionalização, o convite a coreógrafos estrangeiros em residência de criação artística, o que é também um vector fundamental para o desenvolvimento e aumento do nível artístico dos seus bailarinos, que têm assim a possibilidade de contacto com novas linguagens coreográficas e com outros métodos de criação. Com dezenas de obras originais criadas desde a sua fundação, a CDC Angola apresentou mais de uma centena de espectáculos em 17 países e 37 cidades.