07/09/2026
Venho por neste meio (divagar) sobre uma questão bastante pertinente que frusta muitos profissionais da área de Higiene e Segurança do Trabalho em Portugal. Não existindo uma resposta única e definitiva, vou partilhar as razões mais comuns que eventualmente explicam este fenómeno.
Porque é que as empresas que colocam anúncios a solicitar Técnicos de Higiene e Segurança do Trabalho (repetindo ao longo do tempo essas solicitações), não dão qualquer resposta positiva e ou negativa, dando origem a não se conseguir descortinar se os CV enviados têm qualificações a mais ou a menos, deixando os promitentes candidatos numa dúvida …
Eventuais razões para a falta de resposta das empresas:
Da parte organizacional:
Volume elevado de candidaturas – Muitas empresas recebem candidaturas e não têm recursos humanos suficientes para responder a cada candidato.
Processos de recrutamento lentos ou mal estruturados – Algumas empresas mantêm anúncios activos como forma de banco de dados, sem uma vaga imediata concreta.
Anúncios repetidos por rotatividade – A repetição dos anúncios pode indicar dificuldade em reter profissionais, devido a condições salariais baixas, excesso da carga de trabalho, ou funções que vão além do TSHST.
Requisitos contraditórios ou irrealistas – Muitas vezes, as empresas procuram um perfil que combine experiência extensa, múltiplas certificações e disponibilidade para salários abaixo do mercado e da responsabilidade a assumir.
Falta de cultura de feedback - Muitas empresas simplesmente não têm como prática dar retorno aos candidatos não selecionados.
Da parte do mercado:
Empresas de consultoria em SST – Muitas vezes são empresas de prestação de serviços externos que mantêm anúncios permanentes para alimentar a sua base de técnicos disponíveis.
Cumprimento legal aparente – Algumas empresas publicam anúncios para aparentar conformidade com processos de recrutamento, mas já têm candidatos pré-seleccionados.
Intermediários Empresas de Trabalho Temporário) – Podem publicar anúncios genéricos sem uma posição concreta garantida.
A falta de resposta, infelizmente, diz mais sobre práticas das empresas do que sobre as qualificações dos candidatos. É uma realidade transversal no mercado de trabalho, mas particularmente frustrante numa área técnica regulamentada como a Segurança s Saúde no Trabalho: no entanto solicitam na mesma candidatura e simultaneamente, qualificação de Ambiente e Qualidade… será que a retribuição também será multiplicada por três? E muitas vezes ainda acopladas com a prestação de funções administrativas…
Este é um ponto absolutamente central e que é uma realidade bem conhecida – e criticada – no mercado português de Segurança, Qualidade e Ambiente.
O “Técnico 3 em 1” – uma realidade problemática
O que muitas empresas procuram essencialmente três profissionais pelo preço de um.
Vejamos a realidade:
O que pedem:
Técnico de Segurança e Saúde do Trabalho (CAP válido, formação específica regulamentada)
Técnico de Ambiente (legislação ambiental, licenciamentos, gestão de resíduos. emissões)
Técnico de Qualidade (sistemas de gestão ISO 9001, auditorias, processo)
… e ainda funções administrativas por cima.
O que oferecem:
Um único salário, muitas vezes próximo do mínimo para a área, que não reflete de todo a tripla responsabilidade
Contractos precários ou a recibos verdes
Carga horária que não permite cumprir adequadamente nenhuma das três funções
Porquê esta prática?
Redução de custos – Especialmente em PMEs, preferem um “faz-tudo” a contractar especialistas dedicados.
Desvalorização das áreas – Muitas empresas veem a Segurança, Qualidade e Ambiente como meras obrigações legais e não como áreas estratégicas.
Confusão entre áreas – O facto de existirem sistemas integrados (QAS) leva muitos empregadores a assumir que “é tudo o mesmo”.
As funções administrativas – São o sinal mais claro de que a empresa não valoriza verdadeiramente nenhuma das três áreas – trata o técnico como um administrativo com “extras”.
Acumular as três funções mais tarefas administrativas deveria, logicamente, traduzir-se numa retribuição significamente superior. Mas a realidade é que muitas empresas exploram a precaridade do mercado e o excesso de profissionais disponíveis para impor condições desfavoráveis.
O ciclo vicioso
Isto explica também a repetição constante dos anúncios que mencionei inicialmente:
1. A empresa oferece condições inadequadas para três funções
2. Contracta alguém que aceita por necessidade
3. O profissional sai ao fim de pouco tempo (burnout, desvalorização, melhor oportunidade)
4. A empresa volta a publicar o mesmo anúncio
5. Repete-se o ciclo
É um problema estrutural do mercado português nestas áreas, onde a legislação exige qualificações específicas, mas o mercado não remunera de acordo com essa exigência.
É uma situação que merecia maior intervenção das associações profissionais e da ACT.
Como agir concretamente para ultrapassar esta situação.
Vou abordar estratégias a nível individual e colectivo:
Estratégicas Individuais
1. Reposicionar a candidatura Especialize-se numa área forte – Em vez de se apresentar como “generalista QAS”, destaque-se como especialista em Segurança (ou Ambiente, ou Qualidade) com conhecimentos complementares nas outras, Defina o seu valor mínimo – Estabeleça um patamar salarial abaixo do qual não aceita, considerando as funções acumuladas que lhe pedem. Questione na entrevista – (se existir?) Pergunte directamente: “Qual a distribuição de tempo entre SST, Ambiente, Qualidade e tarefas administrativas?” Isto demonstra profissionalismo e filtra empresas pouco sérias.
2. Diversificar os canais de procura Candidaturas espontâneas a empresas maiores (que tendem a ter departamento QAS estruturados) Networking activo – Associações ou grupos profissionais no Linkedin Mercado de serviços externos – Considerar criar actividade própria de prestação de serviços SST a várias empresas (maior autonomia e potencial de rendimento) Sector público e organismos regulares – ACT, câmaras municipais, hospitais públicos (concursos com condições mais transparentes)
3. Valorizar o perfil Formação continua certificada (actualização do CAP, auditorias, legislação) Certificações reconhecidas (ISSO 45001 Lead Auditor, por exemplo) Publicações técnicas ou participação em eventos do sector
Estratégicas Colectivas
4. Acção associativa e sindical Aderir e participar activamente em Associações profissionais que defendam a regulamentação da profissão e condições dignas Reforço do enquadramento legal que impeça a acumulação abusiva de funções Denunciar à ACT situações em que um único técnico é obrigado a cobrir responsabilidades que exigiriam vários profissionais, comprometendo a segurança.
5. Sensibilização do mercado Partilhar publicamente (Linkedin, fóruns) análises sobre o custo real da desvalorização destas funções (acidentes, coimas, perda de certificações) Recusar colectivamente condições abusivas – quanto mais profissionais aceitarem o “3 em 1” ao preço de 1, mais o mercado perpetua a prática.
Abordagem prática recomendada
A curto prazo: Seja selectivo, candidate-se a empresas que demonstrem estrutura e seriedade, e não hesite em recusar propostas que desvalorizam, as suas qualificações.
A médio prazo: Invista em especialização e networking que o coloquem em posição de escolher, em vez de ser escolhido.
A longo prazo: Participe na mudança colectiva do sector – a valorização da profissão depende também da recusa organizada de condições indignas.
CONCLUSÃO: A situação não é fácil, mas a postura mais eficaz é a de não alimentar o ciclo – cada profissional que recusa condições abusivas contribui para que o mercado seja forçado a ajustar-se.