09/10/2026
𝟒𝟏 𝐚𝐧𝐨𝐬 𝐝𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐭𝐢𝐭𝐮𝐢𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐝𝐚 𝐅𝐫𝐞𝐠𝐮𝐞𝐬𝐢𝐚 𝐝𝐚 𝐐𝐮𝐢𝐧𝐭𝐚 𝐝𝐨 𝐂𝐨𝐧𝐝𝐞
09 de outubro de 1985
Hoje assinalamos a criação da Freguesia da Quinta do Conde! Os limites territoriais englobam a antiga propriedade da Quinta da Ribeira de Coina (popularmente conhecida como “Quinta do Conde de Atouguia” e posteriormente apenas como “Quinta do Conde”); as propriedades da antiga Quinta do Casal do Sapo (Fontaínhas, Casal do Sapo e Pinhal do General); as Courelas da Brava (da ribeira da Brava/Apostiça) que pertenciam à propriedade dos Mesquitas; e parte da antiga propriedade da Quinta do Perú, que agora é um condomínio de desígnio privado. Até 1985, estes terrenos eram limites da Freguesia de Sesimbra (Castelo) e a partir daí passam a englobar uma única "Quinta", agora elevada a Freguesia com autonomia.
Hoje é dia de lembrarmos o percurso de um passado mais recente. Após o 25 de Abril de 1974, o nosso país atravessava uma crise habitacional sem precedentes, e foi por isso que vários operários e administrativos começaram a procurar loteamentos para construir as suas habitações. A Quinta do Conde - à data propriedade de António Xavier de Lima e adquirida por este aos descendentes de José Maria da Fonseca -, constitui-se como uma alternativa interessante à problemática. A compra de lotes em massa deu àqueles lugares (que já haviam sido habitados em muito menor escala por rurais que vinham trabalhar naquelas propriedades) uma nova configuração urbana. A paisagem da Quinta do Conde transformou-se drasticamente: casas de pedra e cal desapareceram; a capelinha à Nossa Senhora da Conceição fora demolida na década de 1950; lagoas e ribeiros foram tapados; caminhos de almocreves e de resineiros foram destruídos; avenidas e arruamentos surgiram e novas parcelas foram desenhadas.
Com este fenómeno, pessoas de Norte a Sul do nosso país, retornados das ex-colónias e emigrantes regressados passam a ser os novos habitantes daquele território. As terras deixam de ser cultivadas e os pinhais foram progressivamente desaparecendo. Ficou a ribeira de Coina e alguns lugares de sobreiros que outrora serviram a indústria corticeira do Barreiro.
Sem se conhecerem, e com uma necessidade que a natureza impôs ao ser humano, era imperioso conviver, socializar e criar laços comunitários. Em bom rigor, estava uma terra por construir: esgotos por abrir; postes de eletricidade por colocar e serviços para dar respostas às necessidades dos novos moradores. Esta charneca foi-se transformando, ano após ano, luta após luta, manifestação após manifestação, reunião de moradores após reunião; reivindicações à Câmara Municipal e aos sucessivos governos centrais. Tudo se criou! Constituíram-se novas famílias, novas gerações ali nascerem e cresceram, e mais gente se foi juntando.
Associações de moradores surgiram – a ADQC (Associação para o Desenvolvimento da Quinta do Conde) –; os Grupos folclóricos foram a opção para a sociabilidade e usufruto da cultura (pois estavam em voga e constituíam a memória das terras de origem destes novos moradores). Entre 1983 e 1993 foram criados cinco aglomerados folclóricos nesta localidade. Era a atividade de eleição dos novos quintacondenses. Constituíram-se também equipas de futebol e de recreio, dando origem ao Grupo Desportivo e Cultural do Casal do Sapo, à UDRQC (União Desportiva e Recreativa da Quinta do Conde) e ao Grupo Desportivo e Cultural do Conde 2 (agora designado de Centro Social, Cultural e Desportivo da Quinta do Conde). Os alentejanos criaram o seu Grupo Coral “A Voz do Alentejo” na Quinta do Conde. Todas elas andaram de braço dado com os Ranchos Folclóricos locais, acolhendo-os, dando-lhes estrutura, ferramentas e vice-versa.
A par desta base social organizativa dos quintacondenses – assente no associativismo popular – organizavam-se também as forças político-partidárias locais, sendo que uma e outra andaram sempre de braços dados (para o bem e para o mal). Era assim que funcionava de Norte a Sul do país, e a Quinta do Conde não aí ser diferente, influenciada pela chama do 25 de Abril. Reprovando-se ou não, essa relação contribuiu para a sociabilidade, democracia e desenvolvimento desta freguesia.
Aqui também se constituíram os primeiros negócios familiares e sociedades comerciais. O ganha-pão e a concretização dos sonhos laborais de muita gente. Uns mais fechados, outros mais abertos e proporcionando emprego a muitos quintacondenses e arredores. Muitos destes empresários financiaram associações locais e seus eventos. Mais uma vez, sempre de braço dado com o associativismo popular.
No século XXI, a Quinta do Conde assiste a uma incursão de novos habitantes. Novamente por questões habitacionais e a proximidade a Lisboa e Setúbal. Esta freguesia situa-se no centro da península da Arrábida, f**a a caminho de tudo. É natural a preferência. Tudo se volta a transformar. As atividades de eleição da década de 1980/1990 perdem o seu fulgor, novas atividades desportivas, culturais e de recreio surgem; novos espaços comerciais; novos partidos políticos e movimentos sociais também.
A Quinta do Conde transforma-se a cada década, e isso dá-nos a perceção de que está tudo feito, ou então que ainda muito está por fazer. A primeira perceção vem essencialmente de quem mora cá há mais tempo. A segunda, de quem para cá veio morar há uns poucos anos. Ambas são visões legítimas, porque a Quinta do Conde hoje pode ser tudo, e amanhã pode deixar de ser – tal como aconteceu em séculos anteriores – uns anos foi muito cultivada e aforada, outros anos as terras abandonadas; a ribeira já meteu muita água, e outros anos quase que seca; os Grupos Folclóricos já foram muitos, e agora só há um, o nosso, o de todos nós: dos quintacondenses, dos camponeses e dos sesimbrenses. A Quinta do Conde é uma incógnita, é uma terra que consegue surpreender e por vezes mal compreendida.
Surpreende tanto que o "Movimento Folclórico" concelhio teve (e tem) o seu fulgor aqui! Têm sido os quintacondenses, oriundos dos mais vulgos lugares do país e do planeta, que procuram estudar, investigar, coligir e salvaguardar, promover e divulgar as tradições de todo o concelho de Sesimbra e materializam-no no Associativismo popular. A atividade tem resistido às mudanças, e oxalá volte a ter o fulgor de outrora. Sem conhecermos o passado, não conseguiremos perspetivar o futuro desta terra, por mais surpreendente e incógnito que ele possa ser. E a nossa associação oferece a primeira parte: a da História Local. O futuro? Esse pertence a todos aqueles que quiserem discuti-lo e construi-lo.
Precisamos de mais rua, de mais convívio, de mais união, de mais conversa, de mais debate, de mais contradição sem ofensa e sem agressão, de mais democracia e entendimento, de mais respeito, de mais reivindicação, de mais equipamentos e de mais atenção. Podíamos contentar-nos com o temos? Acho que não dá! Não faz parte da surpreendente transformação que tivemos desde 1974 até aqui. O que se conseguiu em 1985 foi fruto dessa insatisfação constante, do querer mais e melhor para a nossa localidade. E achamos que assim continuará, até sermos uma Cidade. Temos história, mas temos ainda mais futuro.
Gente de toda a parte que escolheu este cantinho para ser gente! Ser gente é ter sonhos, ter utopias, ter lutas, ter organizações sociais, é ter ação concreta. E que assim continue por muitas mais décadas.
Em 41 anos foi possível fazer muito ao ter-se constituído um órgão autárquico, a nossa Junta de Freguesia e com um apoio decisivo e indispensável da Câmara Municipal de Sesimbra. Que este órgão (Junta de Freguesia) seja sempre dos quintacondenses, um espaço aberto, acolhedor, democrático e que preste um serviço de excelência à sua população mas, com a sua população.
Viva a Quinta do Conde e as suas gentes!
Parabéns a todos nós pela criação da Freguesia e de quem a transforma todos os dias!
André Antunes
(Presidente da Direção)