21/03/2026
( Tanta gente por aqui vai dizendo…antigamente é que era bom…)
As sacas
Se a chuva amainasse as “gabardines” estariam menos molhadas e seriam novamente utilizadas no regresso a casa, caso contrário seriam um estorvo e de nada serviriam para tapar a chuva ou o frio. As “gabardines” eram sacos do adubo que depois de lavados e com os fundos metidos para dentro se vestiam ficando presos pelas bainhas nas nossas cabeças, à falta de melhor era uma sorte termos estes sacos para nos protegermos da chuva e do frio. Casacos impermeáveis ou capuchos só para os filhos dos mais abastados. Os alunos que moravam nas quintas ou nas aldeias mais distantes sofriam muito. O Inverno era rigoroso e o vestuário ou calçado para lhe fazer frente não estava ao alcance da carteira da esmagadora maioria das pessoas da terra. Quantas vezes não tinham os nossos pais de pedir fiado um par de botas ao António Camilo ou ao Chinama para que nós não andássemos descalços e depois irem pagando conforme as possibilidades, o mesmo acontecia com o Zé Alfaiate ou com o Teso. A vida era dura e nossos pais faziam tudo quanto era possível, mas às vezes não chegava mesmo, e alguns de nós tínhamos que andar descalços. Com a roupa era a mesma coisa, a que dava para aproveitar de uns para os outros nem sempre era suficiente e por mais remendos que nossas mães lhe “botassem” nunca tapavam aquilo que seria desejável, muitos de nós andávamos com os joelhos e com os fundilhos das calças rotas. Pelo Natal ou pela Páscoa quando vendiam o porco na feira ou quando recebiam o dinheiro da colheita das batatas é que nossos pais tinham condições para nos comprar qualquer coisa, mas os filhos por vezes eram muitos e dificilmente chegava para todos.
A escola era frequentada pelos alunos que moravam em Midões, mas também do Coito, Tojais, Vale de Gaios, Casal da Senhora, Ribeira e outras quintas espalhadas pela área geográfica da freguesia nos seus arrabaldes. Os alunos iam chegando, os meninos concentravam-se debaixo do telheiro que havia nas traseiras da escola, as meninas no alpendre de entrada, não me lembro se uns vestiam azul e outros cor de rosa, mas que havia discriminação sexual lá isso havia, meninos de um lado meninas do outro. Porém as casas de banho se é que assim se podiam chamar eram contíguas, lembro-me que nunca funcionavam por falta de água, os rapazes lá se desenrascavam nas traseiras destas, qual papel higiénico qual gaita, nada disso existia. Para cúmulo da inexistência de higiene, precisamente mesmo ao lado de onde os rapazes defecavam havia um poço que fazendo acionar uma bomba manual, bomba grande e circular, debitava água que se bebia diretamente de uma to****ra existente na parede das casas de banho. Claro está que tanto a urina como as fezes iam sempre para dentro do poço.
Recordo-me de quando os rapazes que vinham de mais longe chegavam, se acendiam grandes fogueiras aos cantos do telheiro, para com isso os aquecer, eles próprios já traziam ramos de pinheiro ou outros para o efeito. Eram condições muito duras e injustas para as crianças, que assim passavam o dia inteiro de aulas, os de mais longe traziam refeições na lancheira, refeições que disso só tinham o nome. Nos intervalos os rapazes jogavam à bola, à bilharda ou ao espeto, o professor Matos era um companheiro no jogo, nunca faltava!
As meninas debaixo das árvores ou no alpendre jogavam à macaca e à pedrinha…nada de misturas!
O chato do Fonseca!