10/10/2026
Crónicas da ARCA!
ENTRE A CRUELDADE E A IMPUNIDADE, HÁ SILÊNCIOS.
Há realidades que acontecem a céu aberto. Há cenários pouco fotogénicos, muito pouco higiénicos, à vista de todos.
E é aqui que a crueldade se separa da impunidade.
Um terreno cheio de lixo e ferro velho. Cães machos e fêmeas a procriar. Cachorros para vender. Condições que levantam perguntas. Doenças que não desaparecem só porque dá jeito não as ver. Como a parvovirose, altamente contagiosa.
Há quem saiba. Quem desconfie. Quem denuncie. E quem, sabendo, continue a sua vida como se o conhecimento fosse uma espécie de absolvição. Não é.
Saber e não agir não é solução. Denunciar e desaparecer também não chega. É preciso insistir, acompanhar, exigir respostas e não desistir só porque o processo é lento, incómodo ou parece não levar a lado nenhum.
É também isto que se faz nos bastidores de uma associação de protecção animal.
Por detrás de cada resgate, há pessoas com empregos, famílias, filhos, contas para pagar e vidas próprias. Pessoas que abdicam do tempo que não têm para tentar resolver problemas que nunca deviam ter existido.
Não somos autoridades. Não podemos fazer tudo. Mas podemos denunciar, insistir e recusar a indiferença.E não aceitamos que esta missão seja inglória.
Não temos a ilusão de salvar todos. Mas temos a teimosia de não desistir daqueles que ainda podemos salvar. Os cães não sabem se quem os mantém tem licença. Não conhecem a lei, os procedimentos ou as competências das autoridades.
Nós sabemos e continuamos. Com o tempo que não temos, o cansaço que acumulamos e a convicção de que há coisas que não podem continuar só porque sempre continuaram.
O silêncio de quem sabe e deixa andar não se pode manter.