03/05/2026
Naquela noite depois da aula de teologia, em debate acirrado com um irmão na fé, o poder da ira me invadiu, o sangue subiu e o rosto ficou em fogo. Qual era a melhor tradição cristã? Quem estava "mais certo"? Tolo jovem, achei-me vencedor naquele debate e em outros também.
Mas alguma coisa me incomodava. Ficou difícil orar. Eu evitava até olhar pros "irmãos errados". Um gosto estranho triunfante de apontar o dedo tirou de mim o "santo mel" da graça que me banhara o coração anos antes.
Muito sincero, eu não entendia o que estava acontecendo. Por que a dor e o silêncio do Espírito? Queria respirar e não podia. Só a Palavra podia me ajudar. Foi um tempo de dor e luta. Até que um dia, li:
“Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor que fosse lançado no mar com uma grande pedra amarrada no pescoço. Se a sua mão o fizer tropeçar, corte-a. É melhor entrar na vida mutilado do que, tendo as duas mãos, ir para o inferno, onde o fogo nunca se apaga. (Mc 9.42-43).
Bateu um desespero. Teria eu usado meu saber e dom para humilhar o outro? Fiz tropeçar algum pequenino? Como doeu! Meu coração teimoso passou a ser ensinado pelo Espírito, pela Palavra.
O rosto agora quente de vergonha e fogo do Senhor contemplava: Toda a lei se resume num só mandamento: "Ame o próximo como a si mesmo". Mas se vocês se mordem e se devoram uns aos outros, cuidado para não se destruírem mutuamente. (Gl 5.14,15).
Com tantos perdidos, milhões em trevas de todo tipo, gente escravizada, com fome, guerras, desastres, mas como tantos eu gastava energia para "bater no próximo"? Qual era minha motivação?
Eu sabia que a doutrina muito importa. Mas era essa a questão? Valia mais do que o amor e a comunhão? Aí vi a renúncia que Jesus pediu: a metáfora do "cortar a mão". E a oração: que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste. (Jo 17.21).
Quando vi as mãos do Senhor, encolhi o dedo e "cortei a minha".
Jesus disse a Tomé: "Ponha o dedo aqui; veja minhas mãos. Estenda a mão e a ponha no meu lado. Pare de duvidar e creia". Disse Tomé: "Senhor meu e Deus meu!" (Jo 20.27,28)
Luiz Sayão