05/05/2018
Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito
UMA LUZ NUMA SEMANA ESCURA
A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito esteve, na última sexta (4), na Ocupação Marisa Letícia, que f**a na rua Vitorino Camilo, Barra Funda, para a realização do ato Oração e Ação na Luta por Moradia e contra a criminalização da pobreza. Cerca de 40 pessoas participaram do culto interdenominacional, na zona oeste da Capital Paulista. O encontro teve que ser realizado às escuras. Poucas horas antes a companhia de energia elétrica suspendeu o fornecimento do serviço no prédio, deixando 39 famílias sem luz. Muitos trabalhadores não tiveram direito sequer a um banho aquecido após o exaustivo dia de trabalho.
Mesmo sem energia elétrica, pouco depois das 19 horas, Vitor Queiroz, da coordenação da Frente em São Paulo, iniciou a atividade no salão comunitário, que f**a na sobreloja. Ao lado da assistente social e também membro da Frente, Priscila Queiroz, puxaram o momento de louvores.
Ao som de hinos como “Aquele que Habita”, “Como te Cantarei, Senhor?” e “Pai nosso dos mártires”, alguns choraram, outros mantinham-se em contrição e pensativos. Eram dias terríveis de uma semana que trouxe luto, luta e muitas dores. “E pensar que muita gente batalhou tanto por sua moradia e perdeu tudo ali”, lamentou a valente paraibana Antonia Serafim, a Toninha, coordenadora da Ocupação Marisa Letícia. Evangélica e membro da Frente, ela lembrou da triste madrugada do dia 1 de Maio, quando o prédio ocupado por um movimento de moradia, o Wilton Paes de Almeida, de 24 andares, desabou no largo Paissandu, matando ao menos uma pessoa. “Era três da manhã e todos nós, atordoados. Os policiais nos mandando embora. Muitas pessoas que viviam lá eram conhecidas da gente. Pessoas que estiveram conosco em outras ocupações”.
O pastor Jair Alves, da Igreja Metodista do bairro do Belém, pregou sobre o texto do Evangelho de João 14:27. “Minha paz a dou. Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize”. Com a ajuda da luz de uma lanterna de celular, ele incentivou: “Precisamos ser evangelizadores da paz. E a paz é fruto da justiça”.
Quem também levou uma reflexão foi Anivaldo Padilha, um dos coordenadores nacionais da Frente Evangélica. “O Deus revelado na Bíblia, no Novo Testamento, por meio de Jesus Cristo, não é um Deus imparcial. Não é alheio ao sofrimento humano. Ele tem lado. Basta olhar toda a trajetória do povo hebreu, desde sua escravidão no Egito até o momento do ministério de Jesus. Uma trajetória de conflitos entre os poderosos da época e os profetas, porta-vozes dos pobres. E Jesus vem dessa tradição profética. De confrontar os poderosos. De luta permanente. Tanto que, quando inicia seu ministério, ele proclama: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para pregar boas novas aos pobres. Ele me enviou para proclamar liberdade aos presos e recuperação da vista aos cegos, para libertar os oprimidos’”, explicou, citando o texto do evangelho de Lucas 4:18.
Maria Eulina, da Ong Clube das Mães do Brasil, também participou do encontro e contou que algumas pessoas que residiam na ocupação do prédio incendiado não foram localizadas ainda. Ela lamentou a forma como os movimentos sociais estão sendo criminalizados. “Não temos paixões (políticas) nem de A ou B. O político assume para atender o povo. E esse povo não tem marca, ele é cidadão. E é preciso atender os que vivem em situação de vulnerabilidade”.
O momento foi encerrado com uma bela canção na língua criola, apresentada por Mones Laidax, 38, e Ketia Badeaou, 25. Ambos vieram do Haiti e há mais de dois anos residem na Ocupação Marisa Letícia. “A canção diz que o favor de Deus é de graça. Estamos tristes com tudo o que aconteceu, mas cremos em Deus e sua bondade”, explicou Mones, que é membro da Igreja Presbiteriana na Liberdade.