Darwin e motocicletas: a fluidez das percepções
Charles Darwin nasceu em Shrewsbury, pequena cidade inglesa, no ano de 1809, e passou sua infância sossegado sob a proteção da posição social da sua família, usufruindo de todas os prazeres que um aristocrata poderia desfrutar na sociedade Vitoriana do século XIX. Entretanto, algo muito visceral acontecia na mente de Charles com o passar dos anos: o
mundo que apresentavam para ele não fazia sentido. Quanto mais profundamente ele imergia nas suas observações sobre o mundo, mais ele percebia que os dogmas de sua época eram apenas maneiras de explicar os mitos que asseguravam a concentração de poder e os preconceitos antropocêntricos. Assim, Charles se transformou de um acomodado e alienado menino para um inquieto, desajustado e revolucionário jovem, capaz de transpor as barreiras que a sua época lhe impôs. Aos 22 anos, o problemático garoto entrou no HMS Beagle para fazer a viagem que mudaria definitivamente sua vida e, posteriormente, a concepção de mundo de toda a humanidade. Da mesma maneira, muitos dentre nós não se sentem confortáveis com contingência hierárquica da sociedade, com as explicações recorrentes para tudo e com a acomodação inerte frente à inexorável fluidez do tempo. De dentro destas pessoas surge um fluido estranho, quase incandescente, feito de leveza e aventura, que leva periodicamente homens e mulheres a sentarem sobre duas rodas e desafiar os próprios limites. Nesses momentos cada um tem a oportunidade de f**ar em contato apenas com seus pensamentos, e embalados apenas pelo ronco do motor podem medir o mundo com seus próprios olhos, livres das amarras sociais, políticas, econômica ou filosóf**as. Em cada quilometro percorrido, na solidão plena da estrada em um passeio solitário ou na reconfortante proteção do grupo em uma jornada coletiva, todos nós que aceitamos o chamado para nos tornarmos motociclistas sabemos que cada instante que vivenciamos altera o nosso modo de perceber os instantes futuros. Cada pássaro que passa, cada árvore que como aquarela f**a para traz, cada fóton de luz que ofusca o olhar deixa uma marca que impossibilitam o continuísmo do ser. Sabemos que o mundo precisa de respostas novas, sabemos que o valor de nossa existência só pode ser explicado por respostas novas. Por isso não nos acomodamos em um sofá em frente a televisão, mas preferimos ir ao encontro do mundo. Podemos dizer que em cada viagem estamos “mundando”, isto é, vivenciando o mundo, e se transformando junto com ele. Da mesma maneira que Charles Darwin mudou com a convivência com o Beagle, cada motociclista se transforma na convivência com sua máquina, e a partir das experiências que tem com sua companheira, molda a maneira que seus olhos enxergam mundo. Texto de Daniel Graichen