27/05/2026
A vida da Carmen foi de afeto e ativismo. Pessoa de rara grandeza, deixou um legado honrado. Carmen fará muita falta pela intensidade criativa e pela paixão com que vivia as amizades, a Antropologia e sua atuação política. Foi indigenista na FUNAI, atuando em Minas Gerais com os Maxacali, em Brasília e no Paraná, onde também foi pesquisadora vinculada ao Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná. Lá conheceu um dos sobreviventes do povo Xetá — considerado extinto pela FUNAI e pela academia — e procurou conhecer a história do grupo. No mestrado em Antropologia Social, realizado na Universidade Federal de Santa Catarina, Carmen passou a reunir documentação e, principalmente, a conversar com os Xetá. No início eram dois sobreviventes de um brutal genocídio e eles afirmavam que, para contar as histórias, precisavam de uma terceira pessoa — a conversa só poderia acontecer entre três. Carmen promoveu esse encontro. Contava, entusiasmada, como foi assistir, diante de seus olhos, à reconstituição de um povo. De três pessoas, passaram a ser oito, número que foi se ampliando com a busca de sobreviventes dispersos por diversas terras indígenas. Narraram as histórias de suas vidas que, ao serem documentadas, lhe permitiram refutar a suposta extinção dos Xetá. Sua dissertação de mestrado, defendida em 1998 na UFSC, foi premiada pela ANPOCS. A partir desse momento, Carmen estava diante de um povo que passou a lutar por uma vida coletiva em uma Terra Indígena. Ela elaborou os relatórios de identificação da Terra Indígena ao lado dos Xetá, trabalho minucioso que refez memórias, temporalidades e espacialidades. A pesquisa realizada por Carmen contribuiu para o reconhecimento do genocídio contra os Xetá nos relatórios da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e da Comissão Estadual da Verdade do Paraná. No doutorado em Antropologia Social, concluído em 2003 na Universidade de Brasília, debruçou-se sobre o mesmo tema e aprofundou o levantamento de dados sobre a realidade do povo Xetá. Em 2006, Carmen tornou-se professora da Universidade Federal de Mato Grosso, no Departamento de Antropologia, onde seu ativismo político em defesa dos direitos humanos dos povos indígenas a levou a desbravar os caminhos das cotas indígenas — um terreno ainda árido nas universidades. Além de assegurar o ingresso de estudantes indígenas na UFMT, Carmen dedicou-se incondicionalmente à criação de políticas de permanência. Concebeu e atuou no Programa de Inclusão Indígena “Guerreiros da Caneta” (PROIND), exemplo para todas as universidades no país. Estudantes indígenas da UFMT frequentemente falam da Carmen com muito carinho e respeito. Sua inserção e protagonismo nas políticas de ações afirmativas levaram a ABA a indicá-la como sua representante na Comissão Nacional de Educação Escolar Indígena (CNEEI) do MEC. Neste triste dia 26 de maio de 2026, chegaram muitas mensagens de agradecimento a Carmen escritas por estudantes e egressos indígenas — palavras de gratidão e reconhecimento pelo importante e sensível trabalho que realizou. Como disse João Guató, estudante do PROIND, a tristeza deste momento está marcada pela perda de uma pessoa singular, que não buscou títulos, mas abriu caminhos para que outros fizessem suas travessias, com uma enorme disposição para ensinar a Universidade a acolher. Grande amiga, das boas conversas, dos risos, das partilhas, o otimismo e a alegria foram marcas da presença de Carmen em nossas vidas – e ela já está fazendo muito falta. Foi uma honra e um privilégio ter compartilhado este mundo com Carmen. Siga em paz, querida.