11/10/2026
QUANDO O TRONO SE VESTE DE PARTIDO, QUEM REPRESENTA O POVO?
Na tradição africana, o poder tradicional deve ser um factor de unidade, não um instrumento de divisão. Um rei não governa apenas os que pensam como ele; representa uma comunidade inteira, independentemente das suas convicções políticas. Por isso, entendemos que um rei não deve assumir alinhamento partidário: os partidos dividem segundo ideologias, enquanto a autoridade tradicional deve preservar a unidade do povo.
A imagem que circula nas redes sociais, associando o actual Rei do Bailundo ao MPLA, levanta uma questão grave sobre a independência e a legitimidade moral do poder tradicional. Quando um rei se apresenta com as cores de um partido, como podem os cidadãos que não pertencem a esse partido continuar a sentir-se representados por ele?
O precedente do antigo Rei do Bailundo, Ekuikui V, cujo afastamento, em 2021, gerou controvérsia pública, torna esta reflexão ainda mais preocupante. As suspeitas de interferência política que marcaram o debate sobre o seu afastamento exigem memória, vigilância cívica e defesa da autonomia das instituições tradicionais.
Não podemos afirmar, apenas com base numa fotografia, que o actual soberano foi colocado no trono para servir os interesses do partido no poder. Contudo, quando uma autoridade tradicional se apresenta publicamente identificada com um partido, cria-se legitimamente espaço para questionar a sua independência e a quem serve, afinal, a sua liderança.
Um reino não é propriedade de um partido, e um trono não deve ser instrumento de controlo político sobre um povo.
A tradição africana deve unir aquilo que a política partidária tantas vezes divide. Quando o trono se submete ao partido, é o povo que corre o risco de perder a sua voz.
Escola de Direitos Humanos e Liderança na Comunidade