07/05/2026
Nota de repúdio
Hoje começámos a nossa oficina de crochê, gratuita, para meninas adolescentes da nossa comunidade e também para outras interessadas. Tínhamos tudo para celebrar, pois, mesmo sem apoio institucional, conseguimos mobilizar parceiros para agregar valor às pessoas por meio deste ciclo formativo ao longo de dois meses.
Mas, infelizmente, o primeiro dia foi marcado pela invasão desnecessária e desproporcional de agentes da fiscalização e da polícia do município dos Mulenvos, que sequer se dignaram a deixar as armas no carro antes de entrar num espaço com crianças tendo aulas. A alegação foi de denúncia de poluição sonora, quando estávamos apenas a iniciar a oficina, sem o uso sequer de um aparelho de som.
Importa lembrar que não somos um espaço surgido da noite para o dia na ilegalidade. Para a revitalização da biblioteca, tivemos o apoio da administração de Viana e recebemos um diploma de mérito do governo de Luanda pelo trabalho social que desempenhamos. A nossa existência precede a própria criação do município dos Mulenvos, formado por antigos funcionários da administração de Viana.
O mais estranho é que, antes do aparato de fiscais e polícias armados, passou por nós o Diretor de mobilidade e transportes do mesmo município. Veio pedir que lhe apresentássemos a licença que nos autoriza a usar o espaço público para o bem comum — um espaço que, antes da nossa requalificação, era apenas uma "pedonal banheiro". Tentou fazer chantagem: caso não tivéssemos o documento, deveríamos colaborar com a fiscalização na remoção das vendedoras de rua, sob ameaça de fechamento da biblioteca, pois, segundo ele, protegemos as senhoras quando são atacadas pelos fiscais. Recusámos.
Não satisfeitos com a nossa resposta, enviaram cerca de dez fiscais e três agentes da polícia fortemente armados para, mais uma vez, importunarem o nosso trabalho e, sobretudo, as aulas de crochê.
Quando os questionámos sobre as razões da invasão armada a um local que não representa perigo, o responsável pela operação — da área da cultura e lazer do município — afirmou, arrogantemente, que a biblioteca era apenas o contentor. Tentou assim invisibilizar toda a área da pedonal, onde os utentes leem, limitando o nosso trabalho ao contentor, mesmo vendo crianças e jovens a usufruir dos serviços debaixo da pedonal. Requalificámos esse espaço há seis anos; antes, era apenas uma casa de banho ao ar livre. Ficou clara, nas entrelinhas, a intenção da actual administração (com pouco menos de um ano) de tomar parte do espaço para colocar uma tenda da fiscalização.
A pergunta que não quer calar: porquê esta perseguição sem tréguas contra um espaço que nada mais faz senão contribuir, do seu jeito, para uma Angola melhor por meio da arte, cultura e educação numa comunidade periférica e esquecida? As respostas, só eles têm.
Com isto, repudiamos veementemente a actuação deselegante dos fiscais afetos à administração municipal dos Mulenvos e qualquer tentativa de perturbar o nosso trabalho em prol da comunidade e do país. O espaço público é de todos, e o nosso trabalho valoriza-o e engrandece a arte e a cultura. Esta tentativa de amedrontar para controlar representa má-fé e constitui um golpe na melhoria da qualidade de vida das comunidades, pois os livros libertam a mente e entretêm de forma saudável as pessoas. Administração Do Distrito Urbano Da Estalagem Administração Municipal de Viana Município dos Mulenvos Governo da Província de Luanda