03/09/2026
"Hoje faz três dias desde que cheguei à Alemanha para participar na Manifesta, uma das maiores bienais de arte contemporânea da Europa. Durante estes dias temos visitado diferentes espaços e partilhado experiências com artistas incrivelmente talentosos, cujas obras ocupam antigas igrejas, fábricas e outros edifícios que, em algum momento, tiveram funções completamente diferentes das que hoje desempenham. Entretanto, o que mais me tem chamado a atenção não é apenas o talento inegável dos artistas ou a qualidade das obras que temos encontrado, mas sobretudo a genialidade na forma como estes espaços foram pensados e transformados. Há aqui uma capacidade de olhar para um lugar que perdeu a sua função original e perceber que ele pode continuar a ter um papel importante na vida das pessoas.
A própria Manifesta é um bom exemplo disso. Antigas igrejas, algumas delas abandonadas, foram ocupadas e transformadas em espaços de arte contemporânea, mas também em lugares de encontro, diálogo e participação das comunidades. E isso faz toda a diferença, porque não estamos apenas a falar de ocupar um edifício com obras de arte, mas de devolver vida a um espaço e criar uma nova relação entre o lugar, a arte e as pessoas. Ontem tivemos uma experiência que me fez pensar ainda mais sobre isso. Assistimos ao musical Rebel Rebel, na impressionante Jahrhunderthalle Bochum, uma antiga fábrica de aço cuja história está ligada a um dos períodos mais sombrios da história da Alemanha. Durante a Segunda Guerra Mundial, aquele complexo industrial esteve ligado à produção de armamento. Hoje, no entanto, a mesma estrutura recebe arte, música, teatro e diferentes manifestações culturais.
O que mais me impressionou foi perceber que não foi necessário apagar a história daquele lugar para lhe dar um novo significado. As estruturas originais foram preservadas, a memória continua ali, mas o espaço foi transformado e passou a fazer parte da vida cultural da cidade. É como se aquele lugar tivesse ganho uma nova vida sem deixar de carregar consigo aquilo que foi. E foi impossível não pensar em Angola. Temos tantos espaços abandonados, tantos edifícios históricos e tantos lugares carregados de memória que permanecem fechados, degradados ou simplesmente esquecidos. E enquanto vejo aqui o que está a ser feito com estes espaços, fico a pensar no que poderíamos fazer em Angola com tantos lugares que hoje estão sem qualquer função.
Quantas antigas fábricas poderiam ser transformadas em centros culturais? Quantos edifícios públicos abandonados poderiam acolher bibliotecas, galerias, escolas de arte, centros de formação ou espaços de criação? Quantos lugares que hoje parecem sem utilidade poderiam voltar a ter importância para as comunidades que vivem à sua volta? É talvez isso que mais me impressiona na experiência que estou a viver aqui. Não é apenas a capacidade de recuperar um edifício, mas a compreensão de que a arte, a cultura e a educação podem dar uma nova vida a esses espaços e, ao mesmo tempo, transformar a vida das pessoas.
E é justamente aí que começo a fazer uma comparação inevitável com Angola. Temos património, temos espaços, temos artistas, temos jovens com enorme criatividade, temos professores, investigadores, agentes culturais e tantas pessoas com vontade de fazer. O que parece faltar é uma visão política e institucional mais forte sobre o papel que a cultura pode desempenhar na transformação das nossas cidades e das nossas comunidades. Investir em arte, cultura e educação não deveria ser visto como algo secundário ou como um luxo para quando houver recursos disponíveis. É também uma forma de transformar pessoas, criar oportunidades, preservar a memória e dar novos significados aos lugares onde vivemos.
Talvez seja esta uma das coisas que mais tenho aprendido nestes primeiros dias na Manifesta. Uma espaço abandonado não é necessariamente um espaço perdido. Pode ser uma oportunidade para criar alguma coisa nova, sem apagar aquilo que ele representa. E talvez Angola tenha muito por fazer nesse sentido. Temos muitos espaços à espera de uma nova oportunidade e muitas comunidades que precisam de lugares onde possam aprender, criar, conviver e imaginar. No fim, o que tenho visto aqui faz-me pensar que a cultura não transforma apenas os espaços. Quando existe uma visão e uma política pública que acredita nela, a cultura pode também transformar as pessoas e as comunidades que dão vida a esses espaços. É essa possibilidade que gostaria de ver cada vez mais em Angola.“
Por: D**o Nível Intelecto (O Gajo De Meuda)